Por Padre Antônio Vieira (1669)
Começando pela cegueira da primeira espécie, digo que os olhos abertos dos escribas e fariseus, eram olhos que juntamente viam e não viam. E por quê? Não porque vendo o milagre não viam o milagroso, como já dissemos, mas porque vendo o milagre não viam o milagre, e vendo o milagroso, não viam o milagroso. O milagre, viam-no nos olhos do cego, o milagroso viam-no em sua própria pessoa, e muito mais nas suas obras, que é o mais certo modo de ver, e contudo nem viam o milagre, nem viam o milagroso. O milagre, porque o não queriam ver, o milagroso porque o não podiam ver. Bem sei que ver e não ver implica contradição, mas a cegueira dos escribas e fariseus era tão grande que podiam caber nela ambas as partes desta contradição. Os filósofos dizem que uma contradição não cabe na esfera dos possíveis: eu digo que cabe na esfera dos olhos. Não me atrevera ao dizer se não fora proposição expressa da primeira e suma verdade. Assim o disse Cristo falando destes mesmos homens no capítulo quarto de S. Marcos: Ut videntes videant, et non videant (Mc. 4,12): Para que vendo, vejam e não vejam. – Agora esperáveis que eu saísse com grandes espantos. Se viam, como não viam? E se não viam, como viam? Dificultar sobre tal autoridade seria irreverência. Cristo o diz, e isso basta. Eu porém não me quero escusar por isso de dar a razão deste, que parece impossível. Mas antes que lá cheguemos, vejamos esta mesma implicação de ver e não ver praticada em dois casos famosos, ambos da História Sagrada.
Estando el-rei de Síria em campanha sobre o Reino de Israel, experimentou por muitas vezes que quanto deliberava no seu exército se sabia no do inimigo (4 Rs. 6,13). E imaginando ao princípio que devia de haver no seu conselho alguma espia comprada que fazia estes avisos, soube dos capitães e dos soldados mais práticos daquela terra, que o profeta Eliseu era o que revelava e descobria tudo ao seu rei. Oh! se os reis tiveram a seu lado profetas! Achava-se neste tempo Eliseu na cidade de Dotã; resolve o rei mandá-lo tomar dentro nela por uma entrepresa, e marchando a cavalaria secretamente em uma madrugada, eis que sai o mesmo Eliseu a encontrar-se com eles; diz-lhes que não era aquele o caminho de Dotã; leva-os à cidade fortíssima de Samaria, mete-os dentro dos muros, fecham-se as portas, e ficaram todos tomados e perdidos. É certo que estes soldados de el-rei de Síria conheciam muito bem a cidade de Dotã e a de Samaria, e as estradas que iam a uma e a outra, e muitos deles ao mesmo profeta Eliseu. Pois se conheciam tudo isto, e viam as cidades, e os caminhos, e ao mesmo profeta, como se deixaram levar onde não pretendiam ir? Como não prenderam a Eliseu quando se lhes veio meter nas mãos? E como consentiram que ele os metesse dentro dos muros e debaixo das espadas de seus inimigos? Diz o texto sagrado que toda esta comédia foi efeito da oração de Eliseu, o qual pediu a Deus que cegasse aquela gente: Percute, oro, gentem hanc caecitate (4 Rs. 6, 18). E foi a cegueira tão nova, tão extraordinária e tão maravilhosa, que juntamente viam e não viam. Viam a Eliseu, e não viam a Eliseu; viam a Samaria, e não viam a Samaria; viam os caminhos, e não viam os caminhos; viam tudo, e nada viam. Pode haver cegueira mais implicada, e mais cega, e de homens com os olhos abertos? Tal foi, por vontade de Deus, a daqueles bárbaros, e tal é, contra a vontade de Deus, a nossa, sendo cristãos. Eliseu quer dizer: Saúde de Deus; Samaria quer dizer: cárcere e diamante. E que é a saúde de Deus, senão a salvação? Que é o cárcere de diamante, senão o inferno? Pois assim como os assírios, indo buscar a Eliseu, se acharam em Samaria, assim nós, buscando a salvação, nos achamos no inferno. E se buscarmos a razão deste erro e desta cegueira, é porque eles e nós vemos e não vemos. Não vês, cristão, que este é o caminho do inferno? Sim. Não vês que este outro é o caminho da salvação? Sim. Pois como vais buscar a salvação pelo caminho do inferno? Porque vemos os caminhos e não vemos os caminhos; vemos onde vão parar, e não vemos onde. Tanta é, com os olhos abertos, a nossa cegueira: Percute gentem hanc caecitate.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.