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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Quis? Quem sou eu? Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro, ou seja Arão secular, ou seja Arão eclesiástico. Eu sou um desembargador da casa da suplicação, dos agravos, do paço. Sou um procurador da coroa. Sou um chanceler-mor. Sou um regedor da justiça. Sou um conselheiro de Estado, de guerra, do ultramar, dos três estados. Sou um vedor da fazenda. Sou um presidente da câmara, do paço, da mesa da consciência. Sou um secretário de estado, das mercês, do expediente. Sou um inquisidor. Sou um deputado. Sou um bispo. Sou um governador de um bispado, etc. Bem está: já temos o ofício, mas o meu escrúpulo, ou a minha admiração, não está no ofício, senão no um. Tendes um só destes ofícios, ou tendes muitos? Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais: que têm quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios. Este ministro universal não pergunto como vive, nem quando vive. Não pergunto como acode a suas obrigações, nem quando acode a elas? Só pergunto como se confessa? Quando Deus deu forma ao governo do mundo, pôs no céu aqueles dois grandes planetas, o sol e a lua, e deu a cada um deles uma presidência: ao sol, a presidência do dia: Luminare niajus, ut praeesset diei; e à lua a presidência da noite: Luminare minus, utpraeesset nocti.8 E por que fez Deus esta repartição? Porventura por que se não queixasse a lua e as estrelas? Não, porque com o sol ninguém tinha competência, nem podia ter justa queixa. Pois, se o sol tão conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu, por que não proveu Deus nele ambas as presidências? Por que lhe não deu ambos os ofícios? Porque ninguém pode fazer bem dois ofícios, ainda que seja o mesmo sol. O mesmo sol, quando alumia um hemisfério, deixa o outro às escuras. E que haja de haver homem com dez hemisférios, e que cuide, ou se cuide, que em todos pode alumiar? Não vos admiro a capacidade do talento; a da consciência sim.

Dir-me-eis, como doutos que deveis ser, que no mesmo tempo em que Deus deu uma só presidência e um só hemisfério ao sol, deu três presidências e três hemisférios a Adão. Uma presidência no mar, para que governasse os peixes; outra presidência no ar, para que governasse as aves; outra presidência na terra, para que governasse os outros animais: Et praesit piscibus maris, et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque terrae (Gên. 1,26). E o mesmo é governar a animais que governar a homens? E o mesmo é o estado da inocência, em que então estava Adão, e o estado da natureza corrupta e corruptíssima em que estamos hoje? Mas quando tudo fora igual, o exemplo nem faz por vós, nem contra mim. Por vós não, porque naquele tempo não havia mais que um homem no mundo, e era força que ele tivesse muitos ofícios. Contra mim não, antes muito por mim, porque Adão com esses ofícios, bem se vê a boa conta que deles deu (Gên. 3,23). Não eram passadas vinte quatro horas em que Adão servia os três ofícios, quando já tinha perdidos os ofícios, e perdido o mundo, e perdido a si, e perdidos a nós.9 Se isto aconteceu a um homem que saía flamante das mãos de Deus, com justiça original e com ciência infusa, que será aos que não são tão justos, nem tão cientes, e aos que tem outros originais e outras infusões? Não era cristão Platão, e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes. E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios. Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes, um que crie a lã, outro que a tosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que a tinja, outro que a tose, e outro que a corte e a cosa; se nas cidades bem ordenadas, o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata, se o que lavra a prata não pode bater o ferro, se o que bate o ferro não pode fundir o cobre, se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metais com uso de razão, no governo dos homens, que é a arte das artes, como se hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir nele, tantos ofícios? Se um mestre com carta de examinação dá má conta de um ofício mecânico, um homem, que muitas vezes não chegou a ser obreiro, como há de dar boa conta de tantos ofícios políticos? E que não faça disto consciência este homem? Que se confesse pela quaresma, e que continue a servir os mesmos ofícios, ou a servir-se deles, depois da Páscoa? Isto me admira!

(continua...)

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