Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Demanda? Ora essa!... – acudiu Joaquim Bernardo. – Demanda?
― Sim; vamos que ela pede metade da fortuna, ou o dote de trinta contos com que o amigo Fialho a dotou?
― O amigo Fialho não tem nada – respondeu triunfantemente o árbitro. – Tudo que ele tem é nosso por uma escritura de dívida. Você tem procuração dessa mulher?
― Tenho.
Então que lhe pague com um trapo, física e...
― Pelo que ouço – interrompeu Fialho – vocês, amigos, decidem que minha mulher se porta mal...
― Pois isso! – confirmou Pantaleão. – Nem dado nem de graça! Você inda duvida?!
― Eu, como não tenho desconfiado nem visto nada...
― Pudera ver... – redargüiu o fiscal da Misericórdia.
― E vocês tem ouvido falar de minha mulher? – perguntou Fialho.
― Olhe, isto de falar, fala-se de todas – respondeu o marido da maiata. – Nem a minha tem escapado, cá por certos zunzuns que me chegaram aos ouvidos; mas vêm barrados cá p’ra mim, que eu sei quem tenho...
Pantaleão e Atanásio trocaram uns lances de olhos velhacos, em que Hermenegildo entrou com o seu contingente de fino maroto.
― Isso é verdade – apoiou o marido de Francisca Ruiva. – A gente, se for a dar ouvidos à canalha, está perdida com a sua vida. Um homem tem sempre rabos de palha. Mas eu ando tanto ao seguro cá a respeito da minha honra, que desafio o mais pintado a dizer de minha mulher isto ou aquilo.
Desta vez os olhos de Joaquim encontraram os de Atanásio, enquanto Fialho lá entre si dizia: “Estás arranjado com a virtude de tua mulher...”
― Meus amigos, - disse Atanásio a seu turno – isto é terra de calunias e aleivosias. A inveja vinga-se em nos ferir no mais sagrado de nossas almas. Aqui estou eu que...
O truculento homicida do caixeiro ia fazer o elogio da consorte, quando Barrosas bradou impacientemente:
― Então em que ficamos, senhores?
― Em que ficamos?! – perguntou Atanásio.
― Sim! Os amigos estão aí a palavrear em objetos que não vêm à colação. Ora que tenho eu que as suas mulheres sejam isto ou aquilo? Se são boas e virtuosas, dêem graças a Deus, e tratem de remediar este contratempo.
― Não tem razão de se agoniar, amigo Fialho – contrariou mansamente Pantaleão. – Isto veio ao caso de você perguntar se tínhamos ouvido falar de sua mulher...
― Mas ouviram? – acudiu arrebatado o esposo de Ângela.
― Eu não! – condisseram os três simultaneamente: - mas você bem sabe – ajuntou Joaquim Antônio, ressalvando melhor juízo – que a nós ninguém dizia nada porque sabem que o Fialho e nós somos carne e unha.
― Sim – obtemperou Pantaleão – pode ser que haja alguma coisa; mas pelo que eu sei não perde ela. ― Mas vocês entendem que o dinheiro não foi para esmolas... – repisou o marido incomodado.
― Sim, eu... – murmurou Joaquim.
― A falar a verdade... – disse outro.
― É muita esmola... – concluiu o terceiro.
― Não que o administrador disse que podia ser!... – sobreveio Fialho, casquinando uma risada gosmenta.
― O administrador é um asno! – definiu laconicamente Pantaleão.
― Asno e mais alguma coisa! – obtemperou Atanásio.
― E então dizem vocês – tornou o brasileiro – que eu devo meter já minha mulher num convento?
― Pudera... – apoiou o marido de Francisca Ruiva.
― Deve dar esse exemplo de moral pública! – confirmou o marido da maiata.
― E saber quem lhe comeu os brilhantes para se lhe dar cabo da casta! – adicionou o matador do caixeiro.
― E isto como há de ser? – volveu meditativo o interrogador dos honrados juizes de sua dignidade. – Eu não a quero ver mais diante de meus olhos!
― Também nos parece acertado isso... – conveio um dos três.
― Pois então, é mister que os meus amigos se encarreguem de lhe dizer que se recolha a um convento.
― Não me nego a servi-lo, Sr. Fialho, no que puder ser-lhe útil – disse magnanimamente Atanásio. – Os amigos conhecem-se nas ocasiões, percebe você? Quer então que vamos dizer a sua mulher que é preciso já já entrar num convento...
― Se ela não disser a quem deu o dinheiro, nomeando os pobres um a um... – condicionou Hermenegildo.
― Apoiado! – aprovou Atanásio. – Se o dinheiro se foi em esmolas, então o caso muda muito de figura, acho eu.
― Isso é verdade – consentiu o fiscal da Misericórdia; - mas é necessário que ela não torne a cair na asneira de dar tão grandes esmolas... que eu, amigos e senhores meus, ainda que ela me dissesse os nomes dos pobres, havia de por de quarentena a galga!... Enfim, lá vamos... Amigo Fialho, descanse em nós, e espere-nos aqui.
Saíram os mensageiros, e ficou entregue às consolações do afetuoso dono da casa o agoniado marido.
V
CONSIDERAÇÕES PLÁSTICAS
D. Ângela já descia as escadas, encaminhando-se à administração, quando foi intimada a comparecer em juízo. Pela primeira vez, em sua vida de vinte e seis anos, encarava um oficial de justiça, cujo semblante carregado e voz cavernosa a traspassou de susto. O esbirro caminhava de par com ela, dando ao ato uma solenidade policial que fez espanto nos lojista vizinhos. Alguns enviaram os marçanos na cola da pálida mulher de Fialho, e ficaram conjecturando, com variadas hipóteses, por que iria capturada a vizinha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.