Por Lima Barreto (1909)
Na cidade longos riscos de fogo brilharam, juntos e espaçados, retos e curvos, paralelos e emaranhados... Chegamos.
Quando saltei e me pus em plena cidade, na praça para onde dava a estação, tive uma decepção. Aquela praça inesperadamente feia, fechada em frente por um edifício sem gosto, ofendeu-me como se levasse uma bofetada. Enganaram-me os que me representavam a cidade bela e majestosa. Nas ruas, havia muito pouca gente e do bonde em que as ia atravessando, pareciam-me feias, estreitas, lamacentas, marginadas de casas sujas e sem beleza alguma.
A Rua do Ouvidor, que vi de longe, iluminada e transitada, em pouco diminuiu a má impressão que me fez a cidade. Pouco antes de partir, havia-me informado dos hotéis e, por essa ocasião, recomendaram-me o Hotel Jenikalé, na Praça da República, de módica diária, para onde me dirigi no propósito de me demorar os poucos dias exigidos para obter a colocação que me daria o Deputado Castro. Fui jantar e sentei-me à mesa redonda, onde havia já muita gente a falar de tudo e de todas as coisas. Evitei travar conversa com qualquer dos circunstantes. Jantei calado, de olhos desconfiados, baixos, erguendo-os de quando em quando do prato para as gravuras que guarneciam a sala, sem me animar a pousá-los na fisionomia de qualquer dos comensais. Não obstante isso, alguém, pelo fim do jantar, venceu a minha obstinação:
— Creio que viemos juntos...
— Não me recorda, fiz eu polidamente.
— Perfeitamente. O senhor dormia quando embarquei.
— Pode ser... Viajei quase sempre assim... Alonguei a resposta muito a custo e a medo; mas, arrependido comecei a pesá-la bem e vi que por ela o meu interlocutor não me poderia roubar o fraco pecúlio.
— Vim a negócios... O senhor sabe, continuou o desconhecido; o senhor sabe; quem quer vai, quem não quer manda... Se me limito a encomendar a farinha — é uma desgraça! Chega azeda e de péssima qualidade — então é um inferno! Os fregueses reclamam; a pretexto disso, não pagam. Para evitar essas e outras, venho de dois em dois meses comprá-la, eu mesmo... Veja o senhor só—é uma despesa, mas que se há de fazer?! ...
— O senhor está estabelecido?
— Em Itaporanga, sim senhor; tenho uma padaria, pequena sim, mas rende. O senhor sabe: o pobre não passa sem pão.
Aproveitei um instante em que se virara para o vizinho, para analisar o padeiro de Itaporanga.
Era um homem baixo, de membros fortes, que respirava com força e desembaraçadamente. Falando, torcia com a mão áspera, de antigo trabalhador, o bigode farto. Descobria-se que na sua mocidade se entregara a trabalhos grosseiros, mas que, de uns tempos a esta parte, gozava de uma vida mais fácil e leve. O seu olhar, inquieto e fugidio, mas vivo, quando se fixava, era de velhaco mercadejante, bem com o código e as leis.
— O senhor veio a passeio? perguntou-me.
— Não senhor, disse-lhe de pronto. Vim estudar.
— Estudar!
— De que se admira?
— De nada.
Em seguida, abrindo o rosto queimado e ameigando a voz, em que havia longinquamente o sotaque português, disse:
— Venha comigo, doutor; vamos dar uma volta.
Não tive tempo de opor uma resposta. O padeiro voltou-se para os fundos da sala e gritou ao caixeiro:
— José! Charutos...
Aquele homem ia pondo em mim uma singular inquietação. A sua admiração tão explosiva ao meu projeto de estudo, as suas maneiras ambíguas e ao mesmo tempo desembaraçadas, o seu olhar cauteloso, prescrutador e sagaz, junto ao seu ar bonacheirão e simplório, provocavam-me desencontrados sentimentos de confiança e desconfiança. Havia nele tanta coisa oposta à profissão que dizia ter que me pus a desconfiar — quem sabe! Entretanto, a sua afabilidade, as suas mãos grossas...
— Ó José! Os charutos? fez impaciente o negociante.
O caixeiro veio capengando sobre umas amplas botinas, e estendeu-nos uma caixa cheia de charutos claros, pimpantes, cujo aroma rescendia e tentava a fumá-los.
— Sirva-se, doutor! São magníficos! O Machado recebe-os diretamente.
E com um franzir de sobrolhos, deu-me a entender a origem semicriminosa dos charutos. Picou a ponta com os dentes, e não sem uma certa elegância, chegou o fósforo aceso ao seu e depois de esperar que eu também acendesse, falou-me:
— O doutor conhece o Rio?
— Não, fiz eu prazenteiramente, pois que o tratamento me agradava. Era a primeira vez que o recebia; lisonjeava-me naturalmente.
— Venha então comigo. Não saio nunca, mas posso acompanhá-lo na primeira visita. Podemos ir ao teatro, são oito e meia. Em dois minutos chego ali à Confeitaria da Estrada, e antes das nove estamos no Recreio...
— Mas, meu caro senhor...
— Laje da Silva, um seu criado.
— Mas, meu caro Senhor Laje da Silva, continuei, estou cansado. Seria melhor...
— Oh! o senhor! Um menino! Deixe-se disso... Vamos, doutor.
O doutor era mágico. Acedi e o Senhor Laje da Silva, negociante com padaria em Itaporanga, muito orgulhosamente estendeu a perna esquerda, e dos profundos refolhos da algibeira da calça respectiva tirou um maço enorme de notas, escolheu uma e pagou os charutos que fumávamos.
III
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.