Por Lima Barreto (1905)
São largas folhas de papel amarelado, cheirando a velho, preciosos pergaminhos em que se mal descobrem caracteres indecifráveis, figuras cabalísticas, coisas intraduzíveis aos nossos olhos profanos.
— Aqui temos nós toda a verdade sobre os tão falados tesouros, diz-nos, num gesto enérgico. Mas antes de enveredar neste caos, uma rápida explicação! As galerias agora encontradas, como já disse, nada significam; são esgotos, são esconderijos e nada mais. O atual edifício do convento compunha-se antigamente de três andares; dois deles estão atualmente soterrados. A porta que conduzia ao Morro, corresponde ao antigo 2o andar do edifício, e estava por conseguinte muito abaixo do primitivo convento.
Todas as galerias que atravessam a montanha com diversos sentidos não foram construídas, como se tem imaginado, no tempo de Pombal, nas vésperas da expulsão da Companhia de Jesus; elas datam da instalação da Companhia no Brasil.
Os jesuítas argutos e previdentes, imaginaram o que, de futuro, lhes poderia suceder; e daí o se aprestarem com tempo, construindo na mesma época em que fizeram as galerias de esgotos e as que serviam para o transporte de mercadorias, os subterrâneos de defesa e os grandes depósitos dos seus avultados bens.
Os jesuítas eram senhores e donos de quase todo o Rio de Janeiro; possuíam milhares de escravos, propriedades agrícolas, engenhos de açúcar e casas comerciais. Quando a 10 de maio de 1710 aportou a esta cidade a expedição de João Francisco Duclerc cuja misteriosa morte vai ser em breve conhecida por documentos que possuo, os jesuítas perceberam com fina clarividência que os franceses não deixariam impune o assassinato do seu compatriota. Prevendo assim a expedição vingadora de Duguay Trouin, os padres da Companhia cuidaram de pôr em lugar seguro os tesouros da Ordem, receosos de um provável saque dos franceses. Aproveitaram para este fim os subterrâneos, já construídos, do Castelo e lá encerraram todos os tesouros lavrando-se por esta ocasião uma ata em latim cuja tradução é a seguinte:
AD PERPETUAM MEMORIAM
“Aos 23 dias do mês de novembro de 1710, reinando El Rei D. João V, sendo capitão-general desta capitania Francisco de Castro Moraes e superior deste Colégio o Padre Martins Gonçalves, por ordem do nosso Rev.mo Geral foram postos à boa guarda, nos subterrâneos que se fabricaram sob este Colégio, no monte do Castelo, as preciosidades e tesouros da ordem nesta província, para ficarem a coberto de uma nova invasão que possa haver. Consiste este tesouro de:—Uma imagem de Santo Inácio de Loiola, de ouro maciço pesando 180 marcos; uma imagem de S. Sebastião e outra de S. José, ambas de ouro maciço pesando cada uma 240 marcos, uma imagem da Santa Virgem, de ouro maciço pesando 290 marcos; a coroa da Santa Virgem, de ouro maciço e pedrarias, pesando, só o ouro, 120 marcos; 1400 barras de ouro de quatro marcos cada uma; dois mil marcos de ouro em pó; dez milhões de cruzados, em moeda velha e três milhões de cruzados em moeda nova, tudo em ouro; onze milhões de cruzados em diamantes e outras pedras preciosas, além de um diamante de 11 oitavas, 9 quilates e 8 grãos, que não está avaliado. Além destes tesouros foi também guardada uma banqueta do altarmor da Igreja, seis castiçais grandes e um crucifixo, tudo em ouro, pesando 664 marcos. O que tudo foi arrecadado em presença dos nossos padres, lavrando-se duas atas do mesmo teor, das quais uma fica neste colégio e outra segue para Roma a ser entregue ao nosso Rev.mo Geral, dando-se uma cópia autêntica a cada um dos nossos padres. Feita nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, aos 24 dias do mês de novembro do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1710 (Assinados) Martins Gonçalves, superior. —Padre Manuel Soares, visitador. —Frei Juan de Diaz, prior.”
Correio da Manhã - sábado, 6 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO
Os Tesouros dos Jesuítas
Diante do documento, em que se vêem arrolados os bens da companhia, sem dissimular o espanto, indagamos do nosso informante:
— E tais riquezas existirão ainda nos subterrâneos do morro?
— Certamente e eu explico: Quando chegou às mãos do Conde de Bobadella, Gomes Freire de Andrade, o decreto de 4 de novembro de 1759, em que D. José I por influência de seu grande ministro expulsara os jesuítas de Portugal e seus domínios, já de há muito que se achavam em lugar seguro os bens da ordem; em obediência à carta régia de 4 de novembro, Bobadella fez cercar o Colégio, aprisionando os padres e cuidou sem detença do confisco dos seus múltiplos haveres; pois bem, tudo quanto se apurou em dinheiro importou apenas na ridícula quantia de 4.173$220!
É crível que a riquíssima Comunidade, proprietária de vastos terrenos, engenhos, casas de comércio, escravos, etc., nada mais possuísse em moedas que aquela insignificante quantia?
E as valiosas baixelas de prata, e os objetos de culto, tais como cálices, turíbulos, lâmpadas, castiçais e as alfaias de seda e damasco bordadas a ouro? Que fim levou tudo isto?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.