Por Coelho Neto (1898)
As suas naus alterosas a bem dizer seguiam impellidas pelo seu querer contra o qual nada podiam os sopros impetuosos nem os escarcéos violentos. Ainda que n'elle houvesse grande devoção, tanto que se achegava aos clerigos que iam a bordo ouvindo-lhes as predicas, não só a Deus entregava o seu destino cuidando sensatamente que se não entrasse na empreza com o seu proprio esforço nem tanto faria a Providencia que, por milagre, o levasse favoravelmente ao destino que buscava.
Só nos momentos de concentração e silencio, pedia o auxilio do Senhor mas, nos instantes de manobra, fallava ao timoneiro, animava a maruja e conduzia a faina com o seu exemplo mostrando-se em toda a parte, pondo-se bem aos olhos dos seus homens. E assim navegavam sem accidentes por noites de calma e dias de sol, com ventos affeiçoados sobre bonançoso mar quando, n'um sabbado, o gageiro bradou annunciando — terra e logo a maruja, acudindo em tropel á amurada, avistou ao longe as Canarias que, d'antes, nos tempos das primeiras navegações, eram conhecidas pelo nome bemdizente de Afortunadas.
Seguiram, mas o tempo começou a variar soprando, com furia, os ventos e, n'um crepusculo denso, uma nevoa ferruginea encobrio o sol que ainda luzia caindo uma noite extemporanea e abafada.
Via-se pouco e mal em torno e o Gama, luctando com tão pesada cerração, deu ordem para que repicassem o sino e logo um homem foi destacado para o campanario, outros tomaram bozinas e charamellas atroando o silencio porque só assim poderiam dar aviso ás naus que, por acaso, andassem perto evitando que se chocassem.
Rompendo a manhã, dissipado o nevoeiro, debalde os olhos procuravam as naus, nenhuma apparecia. Então, como houvera combinado, ordenou o capitão que se fizessem de rumo para as Ilhas do Cabo-Verde e, pouco depois de alcançarem a ilha do Sal, avistaram os navios que bordejavam e logo, de todos, romperam sons de trombetas e estouros de bombardas.
Dalli por diante, singrando com pequena demora na ilha de S. Thiago para reparo de algumas avarias, seguiram sem desastre de monta a não ser uma das vergas da capitanea que se partio a uma rija lufada do vento sul. Dalli apartou-se Bartholomeu Dias para o seu destino a S. Jorge da Mina e a frota fez-se ao oceano.
N'uma tarde, estando a maruja em repouso, toldou-se um ponto do céu e, como tudo era novo para aquelles homens, correram todos a ver o phenomeno — uma abalada de garças passou em rumo á terra, reunidas como se, com andarem juntas, melhor pudessem resistir aos temporaes daquellas zonas e no mar, porque a natureza d'esses lugares começava, com vaidade a dar amostras do que tinha, annunciando-se por um jorro d'agua, uma baleia deslisou boiando e outras muitas, de então por diante, foram vistas seguindo lentamente em direcções diversas.
A Fortuna, que ia como passageira a bordo, farta de andar sobre aguas, deixou-se ficar no remanso abrigado de alguma ilha porque o mar banzeiro entrou a rolar, crespo e escuro, espumando como n'um furor perverso ; cairam os ventos de monção e outros vieram tão cheios que as velas inchadas estalavam, rangiam as vergas e as naus, numa desabalada carreira, com as proas afundadas e as postiças ao rez d'agua, fugiam.
Subitamente esfusiava o ponteiro e logo o panno molle trapeava, sustava-se o curso e as embarcações, atropelladas, ficavam jogando com estridor dos mastros como se alli se fossem desfazer. Como ainda se avistassem as naus de quando em quando, ora em altos vagalhões, ora descendo a cavaduras fundas, iam os homens soffrendo aquellas desfeitas dos elementos sem desanimo mas, n'um entardecer abrazado, mergulhando o sol como uma posta de sangue, nuvens sinistras se foram arrumando e todo o mar, liso e quieto, ficou como um lago remansado ; respirava uma brisa tepida.
Informados pelo judeu Zaguto e conhecedores daquellas insidias dos elementos o Gama, na sua nau e os capitães nas que levavam começaram a ordenar a manobra, pondo-se á capa, fechando as canhoneiras e as escotilhas e tão depressa andaram os homens como os ventos.
Uma noite impenetravel encerrou a frota — só os relâmpagos alumiavam, com fulvos clarões, o mar que rugia. Aos embates da vaga assaltante amparava-se a marinhagem afoita aos mastros ou, agarrando-se ás enxarcias, punha o corpo seguro para que não fosse, de roldão, pelo convez molhado. Quando o céu ficava fulminado tambem o mar acccndia-se e por segundos vogavam os miseros como n'um incendio, atordoados com o estrondo dos trovões.
O marulho crescia e, em tão apertada urgência, nem mais distinguiam o dia da noite, sendo a escuridão constante. Mal se podia ter o lume acceso para cozer os alimentos e. quando se punham os marinheiros em torno das bandejas, arranchados, vinha uma vaga roncando e lá lhes levava a ração deixando-os encharcados nem lhes era dado repouso porque andavam as macas escorrendo e, se algum exhausto, procurava a que lhe convinha com um mergulho da nau ou ao rolar d'um escarcéo lá saltava o infeliz, cuspido longe, maguando-se nas taboas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.