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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Vai, então, meu filho: tem paciência. Vai ver se ainda podes salvar aquela infeliz. E que Deus te acompanhe. Nunca pensei que Violante fosse capaz de fazer isto comigo. Nunca pensei!

— Bem, mamãe. a senhora não consegue nada com lágrimas; vá deitar-se. Eu vou à polícia.

E baixinho, à negra, com voz trêmula, recomendou:

— Não a deixes, Felícia; tem paciência. Ela está doente, pode ter alguma coisa séria com este choque.

— Vosmecê pode ir descansado. — Até já, mamãe: e vá deitar-se.

Dona Júlia balançou a cabeça desanimadamente, e Paulo enfiou pelo corredor, por onde o vento zunia. Na sala deteve-se, d'olhos altos, trincando os lábios, e, como a negra lembrasse o sobretudo, voltou-se repentinamente:

— Heim?

— Por que vosmecê não leva o sobretudo? Está chovendo tanto.

— Não: não é preciso.

Escancarou a porta e mergulhou na escuridão tempestuosa, com o guardachuva diante do peito, chapinhando em poças, sem ver, sem ouvir, atordoado e com os olhos cheios de lágrimas que lhe rolavam pela face.

Diante da Central, obscura e deserta, elevando os olhos neblinados, viu que eram duas horas. Nem um bonde, nem um tílburi: a praça estava vazia, à chuva. O vento, com uivos, em fortíssimas rajadas, apanhando-lhe o côncavo do guardachuva, arrastava-o, como se o quisesse levar, em monção propícia, mais depressa e direito ao destino. Em frente, a sombra era densa e os lampiões, brilhando, irradiavam no aguaceiro como aranhas d'ouro em teias de cristal.

Que seria dela? Onde andaria?! Tirou um cigarro do bolso, rebuscou a caixa de fósforos e, como não a encontrasse, teve um ímpeto de cólera, atirando à lama o cigarro úmido e mole.

Caminhando, pensava: "Que poderia fazer a polícia sem uma indicação, com uma noite daquelas? De manhã seria tarde; talvez mesmo àquela hora já a sua pobre irmã..." Deteve-se subitamente, sustado por uma cólera violenta, d'olhos cravados no chão; trincou os lábios e um impropério saiu-lhe da boca ressecada. "E a pobre velha? Que seria dela com tamanho choque?"

Ouviu um tinido de campainha através do surdo rufar da chuva, voltou-se sôfrego: nada! Pôs-se de novo a caminho, com mais ânsia, pelo meio da rua. Um Bêbedo resmungava, chafurdando nas poças, aos trancos.

Passando por uma casa baixa, iluminada, ouviu falas. Sobressaltou-se-lhe o coração num presságio. Talvez estivesse ali. Parou um momento, à escuta, e, atrevendo-se, espiou pelas frestas da persiana e viu, no meio da saleta triste, sobre uma mesa, um pequenino caixão entre velas. Uma mulher contemplava-o chorando e, em volta, outras mulheres, sentadas, cochichavam. Foi-se.

Não! Violante devia estar em algum sítio confortável, algum hotel de luxo, com o sedutor. Conhecia-a bem. Não sairia senão com quem lhe pudesse dar o fausto com que sonhava, vendo as gravuras dos figurinos ou lendo as descrições dos romances. Bem certo estava de que a irmã só se deixara arrastar à infâmia por vaidade, calculadamente, não por impulso d'alma.

Dobrou instintivamente a Rua da Constituição. Os seus passos ressoavam na rua deserta sem que ele os ouvisse, atordoado com os pensamentos que lhe trabalhavam o espírito. Tomou pela Rua do Núncio, desceu a do Visconde do Rio Branco e, achando-se na do Lavradio, houve nele um renascimento de coragem, uma grande e desanuviada esperança. "Podiam encontrá-la ainda pura. Os agentes conhecem todos os recantos e ela, talvez por pudor, resistisse, dando tempo a que a salvassem." E, quase a correr, aos saltos, evitando os lameiros, lançou-se para a polícia. A medida, porém, que se aproximava, como quem se avizinha de uma ilusão, ia-se-lhe a esperança desfazendo n'alma.

Àquela hora o edifício parecia repousar em sono calmo: a própria sentinela, atabafada no capote, com o capuz pela cabeça, agudo e negro, a lembrar um monge, estava encostada a um dos umbrais, d'arma ao ombro, imóvel. Atirou-se pelas escadas e, em cima, no corredor, à meia luz dormente de um bico de gás, viu dois homens num banco, cochilando. Um deles, porém, mais pronto, ouvindo o rumor, abriu os olhos, pigarreou e, firmando-se, encarou-o carrancudo. Paulo, quase sem hálito, pediu para falar ao delegado: Tinha urgência, era um caso grave.

— Se não é coisa de muita importância, o melhor é o senhor entender-se lá embaixo com o tenente, porque o doutor está descansando.

— Não; é mesmo com o delegado que pretendo falar.

— Quem é o senhor? — perguntou o homem molemente, abotoando o colete, enquanto o outro, que acordara, coçando com fúria a grenha hirsuta, engrolava escarros.

— Paulo Jove, estudante de medicina. — Já o homem caminhava quando, adiantando-se, ele ajuntou, em tom confidencial: Olhe, diga que sou do Equador. Tenho urgência, é um caso grave.

(continua...)

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