Por Coelho Neto (1897)
Caravanas desfilavam – os homens à cavalo, com as lanças altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.
Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths(1) vibravam, frutas desferiam e os cavalos alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam túmulos.
José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, metendo por atalhos para evitar a chacota da gente nômade.
Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.
Pós ela uma pequenita, já com abundância de flores, ainda varejava os matos procurando anêmonas.
Vendo-as, a mísera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos d’água, perguntou:
“Se ainda distava muito Edor, onde vivia Burac, o nazir, que conhecia a virtude das ervas e realizava curas maravilhosas. Vendera as ovelhas e levava oito ciclos de prata e um colar de ouro comprado em Jerusalém e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saúde do
filho.”
José estendeu o braço na direção do levante: - Era além, muito longe, através da montanha, num vale sombrio, a horas do Jordão. Maria, comovida, quis ver o infante. A mãe descobriu-lhe o rosto. Era lindo!
Os cabelos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cúpulas tumbais das pálpebras, com os longos cílios repontando como a erva que fica no abandono.
A boca, de lábios cerrados, lívida, era como o leito seco de uma torrente que o sol exauriu e estalou.
Não se movia e, tão rígido, tão frio estava que só a ilusão do amor podia ainda emprestarlhe vida. A pequenita continuava a rebuscar anêmonas cantando.
- Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse comiserado o patriarca, acrescentando: Burac pode sarar enfermos, mas só Elias ressuscitava os mortos.
- Quereis dizer que ele está morto!? Exclamou a mulher tremendo. Se, ainda ontem, o embalei nos braços... Se ainda estou com peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das colinas.
Ai! de mim... Bem que eu não queira cantar a cantiga tristonha!! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim! Adormeci-o para sempre. E agora? Quem terá piedade da minha solidão? Era ele só...
Nasceu em noite de luar, finou-se em manhã de névoa. E hei de o deixar na terra justamente quando o inverno chega! Ai! de mim...a saudade mudará o leite dos meus peitos em lágrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim! E a moça deixou-se cair à beira do caminho apertando nos braços o corpo do filho morto. A pequenita continuava a rebuscar anêmonas.
Maria inclinou-se compadecida sobre o cadáver e duas lágrimas da sua piedade rolaram na fronte gélida do defunto.
Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azuis, cor do céu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no colo materno. O espanto emudecera, imobilizara a moça.
Súbito, ergueu-se com um grito d’alma, pôs-se a rasgar a túnica na pressa de amamentar o filho.
Os peitos saltaram túmidos. O pequeno abocou avidamente e a mãe, sentindo-o sugar, contente e com lágrimas, ajoelhou-se e, d’olhos no céu, ficou como petrificada.
Maria chorava por vê-la chorar venturosa e, com as suas lágrimas na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d’água borbulham, às mil, as bolhas de ar.
CAMINHANDO
Maria caminhava em silêncio, pensando naquela mãe que, repentinamente, passara da maior desventura à maior felicidade pelo prestígio das lágrimas misericordiosas.
- O pequenito dormia e a pobre mãe tinha-o por morto. Foi bastante que eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos. - É que o despertaste, disse o patriarca sem aludir ao prodígio que testemunhara.
Ele ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realizavam à passagem da Virgem; ribeiros que sustavam o curso oferecendo o leito enxuto para a travessia; árvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios límpidos que rebentavam das pedras e, durante os curtos sonos da donzela não lhe passavam despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos aveludados.
A mais e mais se lhe firmava n’alma a certeza de que as palavras que ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do céu.
Aquela era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes.
Ele acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos quando a via adormecida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.