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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Entrava na oficina do operário, subia às pedreiras e, enquanto a broca ia furando o granito, sob a radiação vivíssima do sol, auscultava o coração do homem rude. Ia aos mercados, aos quartéis e, à noite, disfarçado, de blusa e tamancos, um gorro à cabeça, o cachimbo à boca, penetrava as estalagens confundindo-se com os que fervilham nesses formigueiros de almas; sentava-se à mesa das tavernas lôbregas, fazia-se das farândolas e assim, mergulhando nesses oceanos, trazia as pérolas que encravava nas páginas dos seus livros. Era essa a sua história. Anselmo, que ouvira extasiado, quando o romancista terminou disse, com inveja de todos aqueles sofrimentos:

— Sim, mas venceu! Hoje descansa e tem um nome glorioso. Ruy Vaz sorriu reacendendo o cachimbo e Anselmo, pondo-se de pé, exclamou:

— Pois eu agora é que vou começar a viver.

— Das letras?!

— Sim.

— Dize então, e dirás melhor e com mais acerto: vou começar a morrer.

— É possível, será um suicídio, mas não posso com o Direito. O Corpus Juris é o meu pesadelo. Tenho horror a tudo aquilo. O Oriente, o luminoso Oriente!...

A Grécia com os seus deuses e com os seus heróis, a Índia com os seus mistérios. Isso sim! Sinto-me arrastado para essas idades. Amo o antigo e esse entranhado amor faz com que eu acredite na metempsicose. Eu fui grego, pelejei nas Termópilas...

— E apanhaste um golpe na cabeça que te levou uma aduela.

— Palavra de honra! Afirmou convencidamente o estudante e, assomado, pôs-se a discorrer e, enquanto referia episódios clássicos de Homero, de Hesíodo, de Xenofonte, Ruy Vaz, que lhe mirava os sapatos muito lustrosos, perguntou:

— Qual o teu número? — Meu número? 128.

O romancista ergueu-se violentamente.

— Como?! 128...! Não são tão grandes os pés dos versos do Rodrigues.

Falo do teu calçado.

— Ah! Pensei que se referia ao meu número de matricula: 38.

— Trinta e oito. Então somos gêmeos. É também o meu. Levantou-se e, depois de lançar um novo olhar aos sapatos do estudante, convidou-o:

— Vamos! O sol começa a abrasar. E caminharam vagarosamente para o quarto onde o criado, como um ciclone, atirava furiosas vassouradas levantando uma nuvem de poeira.

Tiveram de esperar um instante ao ar. Logo, porém, que o criado deu por terminada a limpeza, entraram e Ruy Vaz foi ao lavatório fazer uma ligeira ablução e, enquanto mergulhava as mãos espalmadas, batendo na água com a volúpia de um cisne acalmado, o estudante, de cócoras, examinava as estantes passeando os olhos pelas lombadas dos livros, atirados ao acaso em mistura incongruente e confusa: a Manon, de Prévost, estava apertada entre decrépitos volumes de Helvécio e um massudo relatório do ministério do império; Homero, numa intangida brochura, tinha familiarmente ao lado um volumete: Urzes e flores, dum Mendes, de Araraquara, contemporâneo e piegas.

Era assim em todos os raios — a douta filosofia acotovelada pelo romantismo ridente; a religião com os seus mistérios da vida superior e as suas consoladoras promessas de eternidade e bem-aventurança esbarrava com as duras palavras cépticas de Schopenhauer e de Hartmann, e Musset, meigo e amoroso, gasto do muito uso que dele havia feito toda uma geração de sentimentais, dormia sobre um atochado volume de Anaes da câmara dos deputados do ano de 1851.

— Tens alguma coisa urgente a fazer na cidade? — perguntou o romancista enxugando as mãos.

— Não. Por quê?

— É que eu preciso dos teus sapatos.

O pasmo do estudante não passou despercebido ao autor de A Barricada.

(continua...)

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