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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

Eram todos uns paraenses morenos e corpulentos, cuja bondade de coração se pintava num sorriso quase constante em seus lábios.

Levando uma carta em que o padre fazia a apresentação dos paraenses, partiram estes e Ruperto para a morada do subdelegado.

Em caminho foram alvo de alguns tiros sem resultado e revistadas as balsas que bordam a picada cousa alguma distinguiram além de vestígios de recentes passos.

Logo que o subdelegado os recebeu deu ordem a Ruperto de velar pela casa e, armando os improvisados guardas, fez enterrar o soldado, indo depois explorar os lugares que julgava terem sido o teatro do assassínio.

A chuva da noite lavara o sangue, mas pelas plantinhas quebradas e pelos fragmentos de pano esparzidos, muito devera ter sofrido a vítima atrozmente arrastada.

Eustáquio não sabia a quem atribuir tais crimes.

Quem seriam os seus autores? Qual seria o seu móvel? A primeira pergunta o seu íntimo como que respondia, mas era-lhe incrível.

Ia nestas meditações, quando os exploradores que examinavam a ribanceira exclamaram:

— Um cadáver!

Via-se, com efeito, meio mergulhado no rio, um corpo

Pertencia a um negro de repelente fisionomia, e segurava com os rígidos dedos um bacamarte.

Era este o vulto sobre quem o jovem policial descarregara a pistola.

O espírito do subdelegado foi intrigado pelo aparecimento deste cadáver.

Com certeza, era de um indivíduo que atacara os guardas e devia ter sido morto por eles, mas esse negro Eustáquio julgava reconhecê-lo, e suas reminiscências se avivando, suas idéias se iluminaram.

Julgava ter descoberto a verdade e uma nuvem de raiva sombria pousou-lhe na fronte.

Não consentiu que o corpo fosse transferido para sua casa, enviando-o para S. João do Príncipe, e teve o cuidado de ocultar à família suas crenças e suspeitas. Podiam ser falsas.

Estabeleceu-se a vigilância dos arredores do sítio pelos quatro engajados, embora provisoriamente, porque Eustáquio escrevera para Manaus exigindo pronto reforço não só de policiais como de munições.

As notícias, levadas por uma dessas embarcações que sulcam vagorosamente o Amazonas, causaram grande sensação na capital da província, indo ainda repercutir em Belém, todavia no Rio de Janeiro talvez nem divulgadas fossem.

Seis praças comandadas por um cabo seguiram de Manaus, a fim de acalmar os ânimos aterrorizados dos moradores de S. João do Príncipe.

CAPÍTULO VI

TRANQÜILIDADE

Em todo este procedimento gastaram-se algumas semanas, durante as quais, apesar de não inquietados, estiveram os moradores da povoação ansiosos pela chegada de novos guardas.

Em um belo dia houve desusado movimento nela. Todos os seus habitantes corriam a assistir ao desembarque de sete soldados.

Espíritos singelos! O que em centros de civilização passa desapercebido, em lugares como S. João do Príncipe é um fato digno de ser visto e apreciado!

Não se ria o leitor, pois que não se ri quando uma criança diz admirável o que mais não é que muito natural.

Esses rústicos são as crianças da civilização, os neófitos do progresso!

Em lugares como esse, onde o clarão vivificante do adiantamento não chegou ainda, tudo quase que é selvagem.

Se há virtude, ela se eleva fulgurante de corações limpos de afetação, se crime, chamejante ele se ergue, rodeado dos vícios em toda a sua hedionda naturalidade.

Prossigamos.

Desembarcadas as praças, apresentaram-se ao subdelegado que tomando cinco para sua casa, como ponto mais ameaçado, deixou duas no povoado.

Foram dispensados, então, os paraenses, e os policiais entraram a renderse em quartos de ronda diurna e noturna, na residência de Eustáquio. Escusado é dizer que os atentados cessaram.

Meses passados, recebeu o marido de Branca a demissão de seu cargo. Não trataremos dela, notaremos unicamente que o novo subdelegado, de incapacidade reconhecida, sabendo do que se passara em S. João do Príncipe, afastou-se, indo algures buscar morada.

Continuavam contudo os soldados em casa de Eustáquio, por quem já sentiam profunda amizade.

Corria o tempo. Um ano, dois anos abismaram-se nos escuros do passado e aurora feliz despontava para a família de Branca.

Os perseguidores não davam provas de existência.

Voltara o sossego.

Nenhum fato mencionável se dera nesses dois anos, se não considerarmos a partida de cinco soldados para Manaus e a entrada em S. João do Príncipe de seis espanhóis, que haviam transposto a fronteira da república do Equador.

No fim de poucos dias estes se ausentaram, sendo totalmente esquecidos.

Onze anos contava Rosalina, ostentando já incomparável beleza.

A beleza da orfãzinha, moldurada de uma graça inefável, que só dá a inocência, realizava o ideal do "anjo".

Sorrindo a todo instante cercava-se o rosto da menina de uma atmosfera de prazer que arredava para longe a tristeza.

Suas risadas e seus ditos infantis ecoavam pela casa e pelo roseiral, transpirando regozijo eterno.

É essa beleza angélica que certas mulheres afetadas pretendem possuir.

Símplices! levianas! Só conseguem conquistar do vulgo o título de "delambidas".

(continua...)

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