Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Deixou-o o senador a escrever uma local em que se pedia ao Congresso que votasse afinal o crédito para instalação da Estação Experimental de Reversão Animal e Quadruplicação dos Bois. Não se compreendia como até ali não tinha sido feito e como é que o governo pagava empregados que não tinham o que fazer, visto lhe faltarem os meios adequados. A fazenda, laboratórios, aparelhos, e demais pertences não chegariam a alcançar o preço insignificante de quatrocentos contos de réis; e não se devia deter o patriotismo dos parlamentares em votar semelhante crédito, desde que levassem em consideração a utilidade da instituição. Fuas era entusiasmado dos projetos de Bogoloff; e, partilhando o seu saber e os seus planos, aconselhara-o a fazer suas compras em uma certa casa, até mesmo se encarregara de fazê-las diretamente.

— Pode entrar, minha senhora.

Fuas julgou reconhecer aquela senhora e logo simpatizou com o seu demorado sorriso que lhe banhava o rosto todo.

— Sente-se.

A senhora sentou-se, apertou a blusa na cintura com o auxílio do dorso da mão esquerda, e disse:

— Não me conhece, Doutor Fuas?

— Minha senhora...

— Eu sou a viúva do Dr. Lopo Xavier.

— Oh! Sim! Sim! É verdade!

Fuas descansou o charuto e continuou pressuroso:

— Não a tinha reconhecido... Não tem mudado nada...

— Não é o que dizem.... Creio que emagreci um pouco.

— Ainda mora em Petrópolis?

— Ainda, Doutor.

— Naquela casa da Westfália?

— Não, Doutor. Na Cascatinha.

— Oh! que bela casa... Tão bonita... Aquele seu jardim é muito “chic”; poucos há aqui como ele. E que camélias? De que morreu o Lopo?

— Tuberculoso.

— Parecia tão forte. Não fui ao enterro porque não me foi de todo possível; mas, creio que recebeu o meu telegrama.

— Recebi, Doutor; e agradeci.

— Lembro-me. O Lopo era muito meu amigo. Ultimamente encontrávamonos pouco. Vivia em Petrópolis e eu pouco lá vou. Quando o faço, é às carreiras; senão teria aparecido para um “poquersinho”.

— Ele gostava muito...

— Eu morro por ele. Muitos filhos, minha senhora?

— Uma única, uma filha.

— Assim mesmo foi feliz.

— Nem tanto, Doutor. Lopo não deixou quase nada...

— Ah! É verdade... E o montepio?

— Uma coisa de nada. Não dá nem para nos vestirmos.

— Também Lopo era desprendido.

— Muito, Doutor, Eu lhe dizia sempre que pensasse no futuro.

— Era um poeta... A senhora não requerei uma pensão?

— Requeri.

— Já me haviam falado nisso. Quem foi, Fuas?

— Devia ter sido Mme. Arlete.

— É verdade. Em que estado está o “seu” projeto.

— Está no Senado, e eu esperava que o senhor se interessasse pela passagem.

— Pois não... Pois não... — Muito agradecida.

A viúva ergueu-se arrepanhou bem a saia irrepreensível e pisou com firmeza na porta da saída.

Fuas ficou um instante em pé, acendeu o charuto que se havia apagado, tirou fortemente as primeiras fumaças, lembrou-se num relâmpago do que havia sido, como se apossara daquele jornal com a ousadia de pirata argelino, por fim pôs as mãos nas algibeiras da calça; e, com a boca semi aberta, ao lado esquerdo, e o charuto ao direito, em mangas de camisa, esteve a olhar com desdém a multidão que escorria lá em baixo roçando as paredes do seu cotidiano.

CAPÍTULO IX

Entre nós, muita gente tem mania de caboclo e havia na cidade uma senhora idosa, D. Florinda Seixas, que cultivava essa mania com muito carinho e constância. Desde anos que a sua casa vivia cheia deles; e, ao surgir a candidatura Bentes, D. Florinda aderiu a ela com os seus caboclos hirsutos. Acontecia também que Bentes tinha um tio, já falecido, mais ou menos notável; e D. Florinda muito naturalmente juntou a sua mania indígena à admiração que sempre professou pela memória do tio de Bentes, o almirante Constâncio. Fundou, consequentemente, uma sociedade — Sociedade Comemorativa do Falecimento do Almirante Constâncio. O principal fim da sociedade dizia-lhe o nome; mas tinha outros, entre os quais, o do ensino do guarani e o das aclamações às pessoas de destaque.

D. Florinda, tendo fundado associação tão útil encontrou dos poderes públicos a maior boa vontade . Foi subvencionada e, graças ao jeito que tinha para agradar, todos a julgaram muito útil em sanar as dificuldades e procuravam-na, aderindo à sua proveitosa associação.

A velha senhora, antes mesmo da fundação, já tinha demonstrado os seus préstimos e, não havia noite em que, com um, dois, ou mais caboclos, não aparecesse nas casas de Bentes ou do Bastos.

Corria que os caboclos eram duvidosos; que eram desertores de regimentos do exército, estacionados no Paraná e Rio Grande do Sul; o certo é que, como caboclos, eles se portavam nas visitas que faziam com a preceptora.

Homens da selva, pouco habituados às regras e preceitos das salas, esses jovens hurons praticavam em casas tão respeitáveis uma única inconveniência: embriagavam-se de cair e caíam pelos jardins, dormiam familiarmente com o rosto para o céu estrelado, como filhos das brenhas que eram.

Não se diga que D. Florinda não empregasse os seus esforços de domadora ou civilizadora para impedir tão indecente caboclismo. Ela era vista a dizer no

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5758596061...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →