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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Fazia um frio de inverno e, com as refregas de vento, a chuva penetrava, gelada, borrifando as mesas mais próximas da porta. Ouvia-se o gorgorejo d'água, que golfava das gárgulas, formando enxurradas. Tílburis passavam à pressa; as goteiras rufavam nos guarda-chuvas.

O botequim enchia-se de gente, que entrava a correr, fugindo à borrasca — uns, limpando os casacos, metiam-se para o fundo, procurando lugar às mesas; outros ficavam pacientemente à porta, esperando uma estiada.

Paulo não se atrevia a sair e começava a impacientar-se, quando viu vir um menino, a correr, rente com a parede, a procurar abrigo. Chamou-o. O garoto levantou a cabeça e deteve-se, com a chuva a bater-lhe nas costas, a escorrer-lhe pelo rosto. Paulo ofereceu-lhe uma gorjeta, para que lhe fosse buscar um tílburi. O pequeno curvou-se, ganhou a rua de um salto, a correr, logo desaparecendo, abrumado pelo aguaceiro.

Um velho, que se acolhera junto à escada, murmurou, aborrecido: "Que tempo!" e logo outro, refugiado, achando ensejo para desabafo, pôs-se a vociferar contra a Prefeitura e os "senhores intendentes", que se abotoavam com o dinheiro do povo, "o nosso sangue", deixando as ruas naquele lamentável estado. Era uma vergonha!

E toda aquela gente, que o temporal prendia, vitimas do mesmo suplício, buscando um derivativo para a cólera, rompeu em acrimoniosas censuras contra o governo, lamentando que tão linda cidade fosse assim esquecida, tornando-se um esterquilínio, um foco de moléstias. O velho ousou uma tímida referência ao tempo da monarquia:

"Era outra coisa. Havia mais cuidado, isso havia. Mais cuidado e mais respeito."

— Ora qual! Vem agora o senhor com a monarquia. No tempo da monarquia era pior. Eu também de lá venho! — berrou um sujeito magro, de pêra, levantando a gola do casaco. — A imundície data de velho tempo e há de acompanhar o país até a consumação dos séculos. É uma praga! Qual monarquia, qual história!

O velho investiu, nervoso, cruzando os braços sobre o guarda-chuva molhado:

— Era pior, era pior, diz o senhor; mas quanto custava um quilo carne? um cruzado!

— À pataca comprei eu muita, e da boa! — emendou outro — Sim, senhor: à pataca, — confirmou o velho. — E hoje?

— Mas nós falamos de carne ou da imundície da cidade, dos meus esgotos?

— De tudo. É tudo uma patifaria! — rouquejou o velho. Não temos homens...

— Para que homens?

— Para quê?

— Sim, para quê?

— Para endireitarem isto.

— Endireitarem... Homens temos nós de sobra. Quer o senhor saber que é que nos falta?

— É vergonha! é patriotismo...!

— Histórias! O que nos falta é dinheiro. Os homens são os mesmos, os vícios são os mesmos, estamos como dantes. Houve apenas mudança de rótulo.

Explodiu um "apoiado", e o da pêra repetiu: "É isso... Houve apenas mudança de rótulo."

A algazarra crescia no fundo do botequim, ao tinir de copos, ao estourar de garrafas, e um bafio quente vinha de dentro, como de enorme calorífero.

— Decididamente esta coisa não passa, — disse o da pêra, com impaciência, e abrindo o guarda-chuva, despediu-se: "Boa noite, meus senhores!" e arrojou-se. Houve um surdo rufo e o homem lá se foi, a largas pernadas, muito esguio, como um cogumelo negro levado pela enxurrada.

Um tílburi apareceu vagaroso, e parou diante do Carceller; pouco depois o garoto surgiu, cansado, com as roupas coladas ao corpo, desenhando-lhe as formas mirradas.

— O tílburi está aí, moço.

Paulo meteu-lhe uma nota na mão e, abrindo o guarda-chuva, em pontas de pés, aos saltos, atravessou o passeio alagado ganhando o veículo e mandou tocar para o Largo do Rocio.

CAPÍTULO XIV

Logo ao entrar na batota soube, pelo porteiro, que lhe abriu a grade, que o jogo ainda não havia começado, por falta de pontos. Efetivamente, ao chegar ao fundo do segundo andar, já com todos os bicos de gás fulgurando, encontrou o Messias e os seus ajudantes, reunidos na sala do bilhar, onde reluzia a buvette de mármore, ouvindo as invectivas do Aurélio Mendes. Trocou ligeiros apertos de mão e sentou-se a um canto, discretamente, para não interromper a facúndia do

"sinfonista verbal".

Aurélio, muito apiançado da asma, estava em um dos seus dias e. apesar da dispnéia, que o forçava a escancarar a boca de instante a instante, numa necessidade de ar, vociferava contra as "múmias", essa legião decrépita de lorpas, sem imaginação, sem estilo, que empanturrava o mercado de sandices, concorrendo criminosamente para a imbecilização do indígena. Citava autores e obras, recitava trechos, pedindo que lhe mostrassem, naquelas verbiagens insulsas, um período, uma frase, um só vocábulo que revelasse emoção, estesia. Era tudo palhada, tudo palhada! afirmou com desprezo, engrolando um grosso pigarro. Messias, muito míope, d'olhos apertados, em dois talhos, para manter a fama de espirituoso de que gozava, atirou-lhe uma piada:

(continua...)

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