Por Coelho Neto (1890)
Raul reclamou contra as portas estreitas. Sempre prosperando em banhas, receava que, uma manhã, acordando, fosse obrigado a demolir a parede do quarto abrindo brecha para passar. Comiam em um hotelzinho, onde a gente da Estrada de Ferro costumava fazer os seus regabofes. De manhã, saindo em grupo, iam a um quiosque para o café. À noite dirigiam-se à estação para conversar e viam chegar e partir os trens e, quando os expressos silvavam, ao longe, paravam agarrados às colunas, com os olhos além, até que, na grande sombra, luzia o olho imenso da locomotiva, e vinha crescendo, crescendo, ouvia-se o rumor e o chiado, e rápido, repentino, o comboio passava levantando um grande vento. Mal se avistavam vultos brancos e lá ia ele curveteando, era uma luzinha que fugia como um vaga-lume e desaparecia na sombra. Logo, porém, outro comboio chegava lentamente, parando junto à estação, à espera de passageiros e outro vinha da cidade, bufando. Saía gente, a locomotiva, desengatada, parda veloz para a manobra no virador e os empregados iam examinar os carros, batendo-lhes nos eixos. Na plataforma iluminada reuniam-se rapazes, moças passeavam, e uma velha negra, aleijada, cochilava a um canto diante de uma bandeja, apregoando, de instante a instante, com uma voz triste, cocadinhas e balas. Anselmo achava aquilo hediondo.
A vida insípida e monótona enchia-o de tédio e desalentava-o. Da manhã à noite era o mesmo, invariável espetáculo da natureza campestre, a mesma vida de rusticidade. Se chegava à janela, os olhos encontravam apenas a estrada larga e deserta, branca, escaldando ao sol. De quando em quando, um homem que descia da sua roça, na vertente dos morros, sozinho, cantando ou com a bestinha lenta carregada, ou negras que tinham ido às compras e tornavam aos seus casebres com embrulhos, o cachimbo nos beiços, descalças, levantando uma poeira fina e dourada
E ali ficava horas e horas, sob a ardência da luz, bocejando, sonolento e mole, ouvindo os silvos dos trens que passavam ao longe. Nos fundos, era a larga e verde planície cultivada, dividida em hortas e quintais. Laranjais de um verde forte e metálico, carregados de frutos, milhos louros, canaviais que sussurravam num mar verde e irrequieto. Um cheiro forte de seiva subia da terra morna. Aves andavam cacarejando e mariscando nos monturos e a uniformidade da paisagem dava uma impressão fatigante à vista, enfarada de arvoredo e de ervas rasas, onde não aparecia um vulto humano, como se o mesmo sol fosse o único encarregado da lavoura daquelas terras fecundas, que se estendiam dilatadamente perdendo-se num horizonte azulado de montanhas.
Anselmo vivia vegetativamente como aquelas árvores fortes que ali estavam agarradas à terra, sugando-a. Mas o que, em verdade, o prostrava era, por assim dizer, a própria fecundidade. Justamente ele estava como aquelas árvores, cujos ramos roçavam o solo vergados ao peso dos frutos; sentia a inadiável necessidade de expansão, o seu espírito começava a produzir exuberantemente, as idéias caíamlhe do bico da pena como caem dos galhos os frutos maduros, mas a sua atividade espiritual, que se ia esperdiçando, dava-lhe grande tristeza. Tarde, às vezes, não podendo conciliar o sono, enquanto os companheiros dormiam, abria a janela à noite silenciosa e, debruçado à mesa, lia e escrevia e, quanta vez o sol o encontrou absorvido na leitura ou rematando páginas. Um dia resolveu descer. Não podia mais com aquela vida amolentadora e estéril. Pedroso tentou dissuadi-lo propondo-lhe alguns discípulos.
— Não, vou arranjar trabalho. Sinto-me morrer aqui. Esta inércia acabrunhame, não posso mais. Preciso trabalhar...
— Mas para onde vais?
— Não sei, hei de arranjar um jornal. Que diabo! É impossível que não haja um lugar para mim. E que não haja! Aqui não fico... não posso, apodreço!
Pedroso encolheu os ombros resignado e Anselmo, resmungando, foi vestirse.
— Vais sem almoço?
— Vou.
— Almoça primeiro, homem.
— Não.
— Que coisa! Até parece que vais daqui ofendido. Houve alguma coisa contigo?
— Não, nada.
— Então?
— Não posso com isto, Pedroso. Estou ficando neurastênico. Há ocasiões em que tenho vontade de chorar.
— Por quê?
— Sei lá, à toa. É este silêncio, é esta monotonia, é tudo isto que me enfeza, que me irrita. Demais, já é tempo de começar a fazer alguma coisa. Se continuo aqui apodreço. Preciso ir.
— Mas não vais zangado conosco?
— Zangado, por que? Vou para não morrer de tédio. Não posso ficar aqui a olhar milhos que amadurecem e galinhas que chocam. Há mais de seis meses que ando nesta vidinha lânguida de fainéant. É tempo de reagir. — E se não achares emprego?
Com grande confiança ele afirmou:
— Hei de achar!
— Mas vens dormir aqui?
— É possível.
— Bem. Já que insistes não quero contrariar-te. Mas a quem vais falar?
— Ao Patrocínio.
— Já o conheces?
— De vista.
— Por que não arranjas uma apresentação?
— Qual apresentação! Vou e falo. Se me quiser aceitar, muito bem; se não quiser, melhor.
— Qual! Tu tiveste algum aborrecimento, Anselmo. — Não tive, palavra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.