Por Lima Barreto (1915)
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais. Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se.
- Oh! general!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda.
- Então veio ver a cousa?
- Vim. Já me apresentei ao marechal.
- “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No Paraguai...
- O senhor conheceu-o lá, não, general?
- Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por pólvora - não sabia?
- Não.
- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá...
Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou:
- Como vai a família?
- Bem. Sabe que Quinota casou-se?
- Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai?
A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto:
- Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento.
O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira, aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam, um instante esquecidas da irmã que sofria.
Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos:
- Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa!
O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível a reprodução de levantes e insurreições.
- Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau efeito!
O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente, com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada:
- Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.