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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Acudiu-lhe logo o nome de Fuas. O jornalista até bem pouco tempo tinha relações de cortesia com Bentes, mas desde que lhe escrevera a célebre carta de desafio em casa de Arlete, a intimidade entre ambos cresceu, como se fosse a de velhos camaradas de colégio. Ele devia estar no jornal. Quase nunca almoçava em casa. Lidos os jornais, logo bem cedo, saía, ia à redação, escrevia alguma coisa que a leitura lhe inspirava e corria a almoçar em algum restaurante da cidade.

O Diário Mercantil era um dos mais antigos jornais da cidade; e fora sempre extremado em matéria política. De mão em mão viera parar às de Fuas que não se enfeitava com o título de redator chefe; deixava-o a outro de mais fama, sendo ele de fato e também quase proprietário da folha,

Ocupava uma grande casa da Avenida; e, depois do O país e O Jornal do Comércio era o jornal mais bem instalado do Rio de Janeiro. A sua venda, sem ser grande, era considerável e a tradição da folha aparava bem as opiniões formalíssimas de Fuas.

Como quase todo o jornal do Rio de Janeiro, era deficiente e pouco preocupado com outros assuntos que não fosse política; mas, assim mesmo, dava fortunas, fortunas, que Fuas gastava com a liberalidade e a constância de um nababo oriental.

Fuas era amigo de Macieira. Tinham juntos negócios e o pôquer os tinha ligado indissoluvelmente. Podia bem ser que o jornalista, com artigos e palavras, demovesse Bentes de prestigiar Contreiras, porque tudo estava em Bentes. O atual chefe do interregno presidencial nada valia e diziam até que as salas e os quartos do palácio de Nova Friburgo já estavam arrumados ao gosto do general.

Como Macieira esperava, Fuas Bandeira estava no seu gabinete de trabalho, escrevendo em mangas de camisa. O charuto não o deixava.

— Tu por aqui?

— É verdade. Não sabes?

— De quê?

— Leste O Intransigente? — Li... Que há?... Ah! é verdade!

— Que pensas daquilo?

— Homem, filho, era de esperar. O exemplo partiu de cima e agora tens que agüentar. Já te tinha dito o perigo que corria a manobra.

— Mas... eu fui quem levantou, por assim dizer, a candidatura do general Bentes.

— Tu pensas que ele se ilude? que ele julga que deve alguma coisa a ti e aos outros?

— Homem... eu acho...

— Qual! Ele sabe perfeitamente que foram os camaradas que assustaram vocês e vão pô-lo lá. Não há por onde sair, meu caro; e entre um camarada, parente, além de tudo, e um paisano...

— Parente também.

— Parente, mas paisano, ele não tem que escolher. Olha: tu mesmo foste quem deu parte de fraco.

— Como?

— Não resignaste?

— Foi por...

— Sei: mas para que apresentaste o Malaquias?

— Porque era parente de Bentes.

— Está aí. Um pequenote aí qualquer descobre um parente melhor, porque é coronel por cima de tudo, e dá-te o tombo.

— Mas Bentes é contra as oligarquias.

— É contra! É contra! Ora, tu, Macieira!...

Fuas chupou o charuto, rodou-o entre os lábios para melhor queimar e disse:

— Agora é tratar de salvar-te.

— Como?

— Pois não sabes? Tens ainda muito remédio...

— Escreve alguma coisa.

— Escrevi; mas é preciso jogar influências em cima dele.

— Tu não podias?

— Direi alguma coisa; mas de que necessitavas era de uma influência permanente.

— O Hildebrando?

— Não te fies nele. Quer muito, quer tudo, e talvez não faça nada.

— Quem pode ser?

— Uma mulher!

— Quem?

— A mulher de Lussigny.

— Como?

— Pois tu não sabes?... Olha: quando Bentes foi à Europa, Lussigny estava a tinir. Tinham gasto o que possuíam e a mulher rendia pouco. Que fez Lussigny logo que soube da chegada de Bentes? Atirou a mulher em cima dele. Tu sabes bem que Bentes nunca esteve acostumado a essas mulheres de espavento, plumas, perfumes, cerimônias; e caiu que nem um patinho.

— É verdade?

— É verdade e tanto é verdade que eles pagaram as dívidas que tinham e vão embarcar para aqui, deixando a vida de “trem de luxo” que levavam. Por aí tu ias bem, infelizmente, porém, a coisa é para breve e os serviços...

— Como poderia conseguir?

— Como? Pois tu não sabes/ Como tu consegues os colarinhos e os punhos? No nosso tempo, todos os serviços têm o seu preço... Tu não sabes?

Macieira não sabia coisa alguma dessa influência poderosa sobre o ânimo de Bentes. A descoberta alegrou-o e ele a pôs de parte como um trunfo forte para ganhar a partida. Fuas fumava recostado na cadeira, batendo as mãos sobre o ventre farto:

— É isto! É isto, meu caro!

— E Bastos?

— Bastos está atarantado... Ainda não tomou pé nessa história toda... O melhor que tu fazes é adiar a eleição e esperar que a mulher do Lussigny venha.

(continua...)

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