Por Coelho Neto (1906)
A porta de uma casinha robusta mulher, encostada ao umbral, uma das mãos engastando o queixo, olhava, com melancolia, o céu carregado, cinzento, sem esperança de sol. Adiante, em outra casinha, a família jantava. O homem, já grisalho, em mangas de camisa, à cabeceira da mesa, os braços muito abertos, as bochechas cheias, todo derreado sobre o prato, devorava. Um pequenote, balançando as perninhas escalavradas, esmagava o bolo de feijão; a mulher, magra, triste, comia lentamente, com ar enfastiado. De pé, na penumbra, ao fundo, uma rapariga ruiva, com um prato sob o queixo, chupava talhadas de laranja, chuchurreando tão alto que se ouvia de fora, e um cão negro, sentado, com as orelhas atentamente fincadas, olhava o homem, à espera de algum bocado.
Meninos, com as calças arregaçadas, chapinhavam sordidamente na lama, aos gritos. Entrava gente — um velho mascate, curvado ao peso da grande caixa; um vendedor de fósforos, com o tabuleiro suspenso à altura do ventre, coberto por um encerado; operários, com as ferramentas, e, à porta da venda, que comunicava com a larga entrada da estalagem, em túnel, havia um ajuntamento: homens de pé, outros sentados em pedras, fumando, conversando.
Fora, ao portão, um garoto apregoava os jornais da tarde. Cães morrinhentos dormitavam pelos cantos e, defronte, num sobradinho amarelo, uma mulher gorda, com fofos de renda à volta do pescoço, chupava roletes de cana, atirando o bagaço à rua.
Apesar da chuva insistente, Paulo adiantou-se para tornar o bonde mais em cima, receando que Mamede o encontrasse ali àquela hora. O bonde estava enlameado e, com o bater das cortinas, iam-lhe ao rosto friíssimos respingos.
Era cedo, talvez, para o jantar. Repentinamente um escrúpulo assaltou-o: "Não, não ia jantar à batota para que o não tomassem por um parasita; tinha dinheiro bastante para pagar-se um bom jantar, bem regado e silencioso".
Detestava as conversas da tavolagem: eram sempre os mesmos assuntos triviais — mulheres e sorte à banca, caprichos da roleta ou dos dados e fantasias de cocottes ou, então, a reles política, recapitulações de artigos de fundo, com os comentários imbecis dos críticos da Rua do Ouvidor.
Só o Junqueira sabia conduzir a palestra para as largas regiões da inteligência, e quando aparecia o Aurélio Mendes, autor do Incréu, romance macabro, vivido em eras obscuras, com alquimistas e bruxas, que era uma critica sutil aos costumes contemporâneos, então apontavam idéias, ressoavam frases, rebrilhavam imagens, explodiam paradoxos. Mas Aurélio andava adoentado e raramente subia à roleta, passando os dias no Laemmert, a folhear brochuras ou na Biblioteca, pesquisando, escavando assuntos para novelas e poemas.
Foi jantar ao Globo. Comia tranqüilamente, olhando as gravuras de uma revista inglesa, quando descobriu, em uma mesa fronteira, dois rapazes que trocavam segredos, olhando-o. Sentiu todo o sangue afluir-lhe ao rosto e, nervoso, carrancudo, chamou o criado e pediu uma garrafa d'água mineral.
Os rapazes continuavam a sorrir e Paulo, a mais e mais perturbado, acompanhava-lhes os movimentos, mirando-os de soslaio. Uma gargalhada estourou, ele recebeu-a em cheio, como uma afronta; o próprio criado, correndo com a garrafa de Seltz, a perguntar-lhe se queria gelo, tinha nos lábios um sorriso escarninho.
Era dele que tratavam e aquela zombaria ligava-se, com certeza, à fuga da irmã. Algum daqueles tipos conhecia-a, era, talvez, o seu amante, e ria-se, narrando, sem dúvida, ao companheiro, fatos miúdos da vida doméstica que lhe relatara Violante — as brigas, as ameaças e, finalmente, a fuga naquela noite agreste.
Mal encetou a costeleta que pedira, rejeitou a sobremesa e foi mais por vergonha do criado, que se serviu de um pouco de queijo. Pagou e saiu, atordoado, como perseguido pelo clamor de uma vaia. Canalhas! rosnou, descendo a escada.
A chuva jorrava torrencial e com muito vento. Ficou no botequim do pavimento térreo, abancou a uma mesa, pediu café e cognac, e quedou acabrunhado, os olhos ao longe, a pensar, com ódio, nos rapazes, desejando um desforço, uma vingança ruidosa. Canalhas!
Lançou os olhos ao relógio — eram cinco e meia, e estava escuro como se fosse noite. Que fazer com aquele aguaceiro? Revoltou-se contra o tempo; parecia um castigo e, como para justificar-se perante Deus, pôs-se a murmurar, passeando pela mesa o seu cálice de cognac:
"Se fosse por vício... Arranjasse eu um emprego... Mas que hei de fazer?" Calou-se, mas intimamente continuou a alegar razões: "Achasse eu um bom lugar... Como manter a casa? A culpa não é minha, bem que tenho procurado — negam-me sempre: que não há vagas..." E, convencido daquele sonho, como se efetivamente houvesse andado a implorar em vão, indignou-se contra os políticos, uns medíocres, que só queriam imbecis que os não suplantassem. "Pulhas!"
A esperança refugiou-o no jogo. Súbito os dois rapazes apareceram, rindo, e era dele que riam — haviam-no avistado. Pagou e levantou-se impetuosamente, sem que os rapazes dessem pela sua fúria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.