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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Lembrava-se, com orgulho, de um "salteador" que interpretara com tanto talento que o empresário, depois da primeira récita, para animá-lo, disse:

— Raul, não fosse a tua corpulência e irias longe no teatro, mas assim, filho, com tanta enxúndia, cansas depressa.

Efetivamente cansou; ou antes: desanimou. A gordura caminhava com tamanha pressa pandeando-lhe o ventre, enchendo-lhe as coxas e os braços que, se uma peça lograva fazer carreira, à vigésima representação Raul era forçado a recorrer ao alfaiate para que lhe alargasse as roupas. Retirado do teatro, com o qual o toucinho o incompatibilizara, vivia melancolicamente, engordando e recitando monólogos pela casa, quando não ia para a cozinha aguar o ensopado ou salgar a sopa.

Mas a alma era grande e, não raro, rebentava-lhe dos olhos em ternura lacrimosa ou expluia-lhe do peito largo em suspiros estéticos sobre algum papel tonitruante de tirano, em peça truculenta. Sentia-se-lhe na melancolia do olhar a nuvem de um pensamento triste que se poderia traduzir livremente nesta lamentação: "Que grande artista se perde neste jacá de toucinho..." Em verdade, era um jacá e atochado.

Pedroso conhecera o Raul na caixa da Fênix, quando por lá andara enamoradamente, com grandes ramos de rosas, seguindo os passos de uma atriz. O professor tinha também certa "queda" para o palco. Não fossem delicados escrúpulos: a família, os alunos... e teria aceitado um convite que lhe fez o Galvão no tempo do idílio, mas o macambúzio Alfredo chamou-o à ordem salvando-o, em tempo, de uma queda fatal no conceito do público e na comparsaria. Consolava-se fazendo "galãs" em teatrinhos particulares. Era melífluo, ajoelhava-se, com muita expressão, aos pés das damas, rente da caixa do ponto para falar com segurança do seu amor. Alfredo era circunspecto — estudava ciências exatas, não fumava, recolhia-se muito cedo e evitava os olhares das mocinhas da vizinhança. Comiam em casa: o Raul cozinhava por economia e, à mesa, os companheiros, gratos, ouviam a história dos seus triunfos no teatro da rua da Ajuda.

Anselmo, posto que não tivesse os cômodos que sonhara, viveu com certo conforto, dormindo à sombra do Raul que roncava como um vulcão.

Foi nesse homizio que ele fez os seus melhores estudos literários. O Raul, que o admirava, ficando em casa enquanto os dois irmãos iam explicar os substantivos e os teoremas, metia-se num canto com um maço de comédias e lia, rindo às gargalhadas, enquanto Anselmo, de papo para o ar, devorava Shakespeare, Dante, Ariosto e quantos poetas lhe caíam nas mãos, por empréstimo, porque os seus livros estavam lidos, relidos e vendidos.

À noite, às vezes, serenatas passavam pela rua silenciosa enfurecendo os cães que investiam e Pedroso, sempre jucundo, abria as portas da casa ao grupo ou seguia com ele a percorrer o bairro adormecido. Anselmo nem sempre o acompanhava, preferia ficar preguiçosamente em casa lendo ou palestrando.

Raramente descia à cidade. Refazia-se física e espiritualmente preparandose para o grande dia em que tencionava aparecer sobraçando os originais do primeiro volume da grande série.

Os rapazes falavam do seu sumiço, faziam conjecturas e ele continuava tranqüilamente os seus estudos.

Ruy Vaz, instalado definitivamente no palacete do visconde, engordava e tinha quase concluído o seu romance. Um incidente, porém, alvoroçou o estudante: o Alfredo, sempre taciturno, descobriu, uma manhã, na fronha alva do travesseiro, uma mancha de sangue e, como houvesse na família vários casos de tuberculose, ficou alarmado decidindo, desde logo, mudar-se para o campo onde houvesse ar puro e árvores e, com precipitação, não querendo dar tempo à moléstia, meteu-se num trem e foi correr os subúrbios achando uma casa modesta, de feição campestre, com muito terreno arborizado e uma cacimba, em Cascadura, numa larga estrada quase deserta que levava aos montes.

A mudança foi feita num dia. Anselmo, à lembrança de viver em tão arredado sítio, hesitou antes de permitir que a sua canastra fosse despachada, mas Raul e Pedroso convenceram-no, falando-lhe do silêncio do campo, propício à meditação e ao estudo, bom ar saudável, da água excelente, dos saborosos frutos e Anselmo deixou-se levar, não prometendo demorar-se porque tencionava arranjar um lugar na imprensa que, ao menos, lhe desse para casa e comida.

A casa era realmente pitoresca. Toda branca na verdura de um pomar e única na estrada areenta onde andavam soltos carneiros, cabras e grandes cevados grunhidores. Nas dimensões era um cacifro.

(continua...)

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