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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

O capitão passeava da proa à ré, mas com o ouvido fito aos movimentos do degredado. Receara ele o propósito do suicídio, porque Mariana lhe incutira semelhante suspeita.

Queria o marítimo falar-lhe palavras consoladoras, mas pensava consigo: — "O que há de dizer-se a um homem que sofre assim?" — E parava junto dele algumas vezes, como para desviar-lhe o espírito daquele mirante.

— Eu não me suicido! — exclamou abruptamente Simão Botelho. — Se a sua generosidade, senhor capitão. se interessa em que eu viva, pode dormir descansado a sua noite, que eu não me suicido.

— Mas mereço-lhe eu a condescendência de descer comigo à câmara? — Irei; mas eu, lá, sofro mais, senhor.

Não replicou o comandante, e continuou a passear no convés apesar das rajadas de vento.

Mariana estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca distância de Simão. O comandante viu-a, falou-lhe, e retirou-se.

As três horas da manhã, Simão Botelho segurou entre as mãos a testa, que se lhe abria abrasada pela febre. Não pôde ter-se sentado, e deixou cair o meio corpo. A cabeça, ao declinar, pousou no seio de Mariana.

— O Anjo da compaixão sempre comigo! — murmurou ele, — Teresa foi muito desgraçada...

— Quer descer ao camarote? — disse ela. — Não poderei... Ampare-me, minha irmã.

Deu alguns passos para a escadinha, e olhou ainda sobre o mirante. Desceu a íngreme escada, apegando-se às cordas. Lançou-se sobre o colchão, e pediu água. que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o estarcimento, e as ânsias, com intervalo de delírio.

De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando o condenado, disse que era febre maligna a doença, e bem podia ser que ele achasse a sepultura no caminho da Índia.

Mariana ouviu o prognóstico, e não chorou.

As onze horas saiu barra fora a nau. As ânsias da doença acresceram as do enjôo. A pedido do comandante, Simão bebia remédios, que bolsava logo, revoltos pelas contrações do vômito.

Ao segundo dia de viagem, Mariana disse a Simão:

— Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer àquelas cartas que vão na caixa?

Pasmosa serenidade a desta pergunta!

— Se eu morrer no mar — disse ele — Mariana, atire ao mar todos os meus papéis, todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro também.

Passada uma ânsia, que lhe embargava a voz, Simão continuou:

— Se eu morrer, que tenciona fazer, Mariana?

— Morrerei, senhor Simão.

— Morrerás?!... Tanta gente desgraçada que eu fiz!...

A febre aumentava. Os sintomas da morte eram visíveis aos olhos do capitão, que tinha sobeja experiência de ver morrerem centenares de condenados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum medicamento.

Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascais, sobreveio tormenta súbita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e, perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto dia de navegação incerta, por entre espessas brumas, partiu-se o leme defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refregas, desencapelaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia de primavera. Era o dia 27 de março, o nono da enfermidade de Simão Botelho.

Mariana tinha envelhecido. O comandante, encarando nela, exclamou:

— Parece que volta da índia com os dez anos de trabalhos já passados!...

— Já acabados... de certo... — disse ela.

Ao anoitecer desse dia o condenado delirou pela última vez, e dizia assim no seu delírio:

"A casinha, defronte de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. Passeavas comigo à margem do Mondego, à hora pensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a Lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada por teu sorriso, inclinada a face ao teu seio, como se fosse o de minha mãe... De que céu tão lindo caímos!... A tua amiga morreu... A tua pobre Teresa..."

"E que farias tu da vida, sem a tua companheira de martírio?... Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou?!... Rompe a manhã... Vou ver a minha última aurora... a última dos meus dezoito anos. Oferece a Deus os teus padecimentos, para que eu seja perdoado... Mariana..."

Mariana colocou os ouvidos aos lábios roxos do moribundo, quando cuidou ouvir o seu nome.

"Tu virás ter conosco; ser-te-emos irmãos no céu... O mais puro anjo serás tu... se és deste mundo, irmã; se és deste mundo, Mariana..."

A transição do delírio para a letargia completa era o anúncio infalível do trespasse.

Ao romper da manhã apagara-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, e ouvira um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braços estendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos.

Entrou o comandante com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração, que não embaciou levemente o vidro.

— Está morto! — disse ele.

Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo.

(continua...)

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