Por Lima Barreto (1911)
Lendo, porém, aquele “suelto”, Neves Cogominho verificou que as suas considerações podiam ser burladas. O processo estava claramente indicado. Um repórter levantava o nome de um coronel, parente ou não de Bentes, para presidente, e, naturalmente, o general, por camaradagem e espírito de classe, dava a mão forte a esse coronel. Chegado este ao poder não iria com toda certeza receber o santo e a senha dos chefes, mas agir a seu modo, com a arrogância de militar e inspirar-se na crença íntima de que era infalível por ser militar.
Tendo tomado no devido valor a meditação, Neves Cogominho resolvera confabular com o seu amigo Macieira. Esperava encontrá-lo no Senado; Macieira, porém, veio procurá-lo em casa.
— Eu já esperava você — disse Neves. — A notícia do O Intransigente devia ter posto a pulga na orelha de você.
— Não sei bem o que hei de pensar dela. Neves, você sabe perfeitamente com que antecedência adotei a candidatura de Bentes... Muito antes de vocês; e pode-se mesmo dizer que, nos meios políticos, fui dos primeiros a tomá-la a sério. O Bastos...
— É verdade: que diz Bastos? Você já falou com ele?
— Ainda não... Estou saindo de casa... Como ia dizendo: Bastos ainda não a julgara objeto de cogitação e eu já a tinha como excelente.
Numa sabendo que Macieira estava em casa, veio ao encontro do senador e da sua desdita. Estava justamente Macieira a relembrar sua ação na candidatura do general, quando ele entrou. Macieira acrescentou:
— Está aqui o Dr. Numa que se lembra perfeitamente dos esforços que fiz, para que você adotasse Bentes em vez de Xisto. Não foi, Dr. Numa?
— É a pura verdade — fez Numa. Lembro-me bem de que até o senador procurou-me mais de uma vez na Câmara.
— Por que você resignou a presidência, Macieira? — fez Neves.
— Ora, por quê? Havia tantos boatos. Tantos enredos que julguei melhor ficar aqui.
— Vigiando — completou Numa.
— Vigiando — confirmou Macieira.
— Pois você quer saber de uma coisa, Macieira? — disse Cogominho.
— Que é?
— Você fez mal. Eu no caso de você, ia para lá. Estava eleito e tomava posse.
— Mas estavam as eleições federais à porta...
— Que tinha?
— Era preciso trabalhar no reconhecimento. — Você trabalhava mesmo de lá...
Numa interrompeu:
— Ou senão, depois de ter tomado posse, o Doutor pretextava licença e vinha até aqui.
— Eu não queria era abrir vaga no Senado.
— Por quê? — indagou Numa.
— Que tinha a vaga? — fez Cogominho.
— Que tinha? Pois você sabe que o Torres, que nunca prestou serviços ao Estado, que nem lá nasceu, já andava se empenhando com Bentes para ser senador.
— Quem disse a você? — Bastos.
Cogominho olhou muito seriamente para Macieira, como se tivesse entendido mais do que as palavras diziam.
— Creio — disse Numa — que o general não se deixará levar por essa camarilha. Ele há de ter na consciência gratidão por nós que o temos apoiado e o apoiamos.
Os dois senadores não quiseram dizer coisa alguma e o silêncio pousou sobre os três.
D. Edgarda veio cumprimentar a visita do pai:
— Já sei, Doutor, que não vão. D Celeste disse-me...
— É verdade.
— Resolveu ficar, então?
— Que remédio!...
— Macieira — interrompeu Cogominho — qual é a tua opinião franca sobre Bentes?
— É um bom homem.
— Isso não basta — observou Numa.
— Todos são bons — acrescentou Edgarda. — A questão é que sejam sempre bons.
— Para mim — disse Neves — eu não me fio muito nele.
— Nem eu — disse com pressa Macieira.
— Agora — aduziu Numa — o que ele fez com o “Velho” não foi leal.
— Eu sou de parecer — fez Edgarda — que não se deve muito contar com a lealdade dele. O que se deve fazer é que ele não possa ser desleal. Aparar os golpes, preveni-lo das intrigas — isso sim!
— Mas, menina — obtemperou vivamente Macieira. - Nem sempre isso é possível.
— Como?
— Seu pai sabe.
— Que há?
— É isto, Edgarda: Macieira queria por na província das Palmeiras o velho Malaquias; andam agora a insinuar que deve ser o Contreiras...
— O coronel?
— Esse mesmo.
— É parente de Bentes — disse Numa.
— Certamente é uma balela — duvidou Edgarda. — Não é. Há alguma coisa atrás disso tudo.
Macieira não acabou de dizer isto, quando Numa exclamou vitorioso.
— Ora! Ora!
— Que é? — fizeram os restantes a um tempo.
— Todos nós estamos com medo de fantasmas. Se Bentes der força a Contreiras e ele tiver votação, a Assembléia não o reconhecerá.
Pelas faces de Macieira brilhou um ligeiro sorriso, e Neves também ficou satisfeito; a filha, porém, depois de alguns momentos de reflexão, disse:
— Assembléia não vale nada.
— Como?
— Eles empregam a força e tudo adere.
A situação voltava de novo a ser obscura e, após algumas outras palavras, Macieira despediu-se para continuar procurando amigos que o salvassem, o apoiassem, evitando o golpe que lhe queriam desferir no seu prestígio político. Lembrou-se de procurar o irmão de Bentes; era um remédio heróico do qual não convinha lançar mão já; Precisava poupar-se e, ir logo ao Hildebrando, seria gastarse, lançar mão de um recurso desesperado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.