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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Olharam-se longamente, por fim a mulata meneou com a cabeça.

— Não. Tudo quanto o senhor quiser, menos isso.

— Por quê?

— Porque não.

— Gostas mais de Mamede?

Ela conservou-se calada, retorcendo a renda do casaco.

— Fala.

— Não é por isso.

— Então por que é?

Ela deu d'ombros.

— Fala.

— Não sou mulher para o senhor.

— Por quê?

— Ora... por quê! O senhor bem sabe.

E, de olhos baixos, com a voz arrulhante:

— A gente dá um passo desses, depois arrepende-se e quem sofre é a mulher. Olhe, uma companheira minha, por nome Belmira, vivia com um moço empregado na Estrada de Ferro. Ele não lhe dava luxo porque não podia, mas nada lhe faltava, verdade seja dita. Um dia, por uma coisa à-toa, brigaram e Belmira, que já andava de namoro com um mocinho como o senhor, deu um pontapé no seu homem e foi para a companhia do outro. Viveram bem durante um ano, mas o moço formou-se e foi para a terra dele prometendo voltar e a coitada ficou para aí com uma filhinha, sem um pão para comer. Não...

— E pensas que eu sou capaz de fazer o mesmo contigo?

— Ora! Eu sei o que são entusiasmos... — e esticou o braço para a mesa:

que é que tem nesse embrulho?

— Frutas e doces.

— Para mim?

— Para quem hão de ser? Mas vamos ao nosso caso: Queres ou não?

— Não. — Voltou rapidamente a cabeça. — Mas me diga uma coisa: o senhor não vem aqui quando quer?

— Venho.

— E então?!

— Mas quero que sejas só minha! — exclamou apertando-a com frenesi.

— Isso é lembrança. Que tem uma coisa com outra?

— Tem muito. — Qual nada!

Tomou o embrulho ao colo, desfê-lo separando os dois que vinham unidos. Palpou-os e, sentindo as frutas, rasgou o papel.

— Assim até tem mais graça e quando o senhor me enjoar pode dizer adeusinho.

E, arregaçando faceiramente o lábio, com a cabeça pendida trincou uma pêra.

— Então decididamente não queres?

— Olhe, quer saber? a coisa de que eu tenho mais medo neste mundo é barriga. Deus me livre! Se eu fosse como muitas que há por aí, isso sim, mas eu! Eu, se tiver um filho, na roda é que ele não vai — mal ou bem hei de criá-lo, o pouco que eu tiver há de chegar para ele. Não quero que Deus me castigue por causa de maluquices. Se vier...

— E Mamede?

— Ah! Mamede é da minha cor, não terá vergonha do meu filho. mas com um moço branco como o senhor... Não! Amanhã encontra uma moça bonita, quer casar... e Ritinha que se agüente no balanço.

— Má!

— Má, por quê?

Encararam-se e ele, apertando-a, ameaçou-a:

— Pois eu venho aqui todos os dias!

— Pode vir, contanto que Mamede não saiba.

— Que saiba! pouco me importa.

— Isso não, que eu não quero cenas comigo. Se o senhor tivesse uma moça por sua conta gostava que ela recebesse outro homem? Não, o direito é o direito. E para quê?

Olhou-o e, vendo-lhe os olhos abrasados, desatou a rir, resmungando:

— Hum! até faz medo à gente... Nossa Senhora!

— Pois eu já tinha apalavrado um cômodo.

— Eu não moro em cômodos.

— Por quê?

— Não gosto.

— Pois eu vejo uma casinha.

— Não quero, já disse. Que teima!

— Mas quero eu! — rugiu Paulo, apertando-a com fúria, procurando-lhe sofregamente a boca úmida que ela desviava encolhendo-se, a rir. Encontraram-se, por fim, os lábios e Ritinha, vencida, derreou a cabeça, retesando a gorja. Os braços penderam-lhe flacidamente, foram-se-lhe os olhos fechando... Súbito, porém, como se a ardência do estudante se lhe houvesse comunicado, correndo-lhe as veias, agitando-lhe os nervos, lançou-lhe os braços ao pescoço e enlaçou-o. Desprendendo-se, ofegante, com a boca entreaberta, levantou-se. Paulo correu à porta e ia fechá-la, quando ela avançou, retendo-o:

— Está maluco!? Pensa que essa gente não viu o senhor entrar? Deus me livre! Logo mais estava tudo nos ouvidos de Mamede. Não, deixe a porta assim mesmo.

— E se ele vier?

— Qual! Ele não vem agora. Está no jogo.

— Isso sei eu que o vi passar para a casa do Cordeiro.

— Pois então?

— Mas pode aparecer por aí. — Qual nada! Só à noite.

Tomou outra pêra, mas Paulo arrancou-lha da mão.

— Deixa-te disso agora.

— Que é que tem? — Ora!

Ela abandonou a fruta sobre a mesa, ele beijou-a.

— Olhe, eu digo a Mamede que o senhor esteve aqui antes que ele saiba por algum desses intrigantes. Não quero histórias comigo. — Pois sim.

Eram quatro horas da tarde quando Paulo, com um último beijo, disse adeus à Ritinha. Chovia e a estalagem triste, de desusada tranqüilidade, com as compridas cordas gotejando e oscilando ao vento, as tinas abandonadas, os coradouros vazios, parecia deserta. Dois pequenos agachados à beira de uma sarjeta, impeliam para a correnteza barquinhos de papel; galinhas muito murchas, encolhidas a um canto, tiritavam encharcadas.

(continua...)

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