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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás; surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritis, de beija-flores; todas essas coisas, de que se alimentam versos comuns e de que morrem à fome os versejadores. Súbito, no melhor das quadras, exatamente quando o poeta apostrofava o dia sereno e o sol, comparando a alegria dos discípulos com o brilho dos prados, e a presença do Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das nuvens espessadas uma carga-d’água diluvial, única, sobre o banquete, sobre o poeta, sobre a miseranda apóstrofe sem culpa.

Venâncio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser inteiramente desmentido pelas goteiras e continuou, na guarita, a falar entusiasticamente ao sol, a limpidez do azul.

Não querendo desprestigiar o estimável subalterno, Aristarco fingia acreditar no improviso e, indiferente, deixava cair o aguaceiro. As abas do chapéu de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque branco desengomava-se em pregas verticais gotejantes.

Para os rapazes a chuva foi novo sinal de desordem. Deixou-se o poeta com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida aos pratos.

A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de atenuar a violência das águas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava. A filosofia impermeável do diretor servia-nos também de capa. Que chovesse! Era o molho dos manjares que nos faltava. As frutas lavadas luziam com um verniz de frescura que o próprio outono não possui. O vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalização solene de púrpura. O banho oportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez das farinhas de recheio. “Acabamos pela sopa, descobriu Nearco, o penetrante, por onde o vulgo principia!”

Qual acabávamos! Ninguém acabou. Sucedeu que, com os fundilhos molhados, ninguém quis mais sentar-se. Girou o atropelo ao redor das mesas; os bancos foram repelidos a pontapés. Repartia-se o doce sem eqüidade; quem não avançava a tempo ficava sem ele. Dois inspetores, João Numa e o Conselheiro, a pretexto de decidir uma contenda, arranjaram-se com uma caixa de pessegada e desapareceram.

A chuva desculpava a bebida. Era inacreditável o consumo de brindes. Brindes a Aristarco, brindes aos companheiros, ao Silvino, ao poeta, ao sol, aos temporais, ao trovão escandinavo; inimigos figadais, no transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente. Rômulo, já tonto, afastado das mesas, brindava o copeiro que lhe arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo também, tocou-lhe o copo.

Como escurecia, o diretor fez o clarim chamar à forma.

Debaixo do aguaceiro que não cessava, o colégio alinhou-se como bem pôde. Muitos, queixando-se de saúde delicada, obtiveram dispensa desta inoportuna disciplina de equilíbrio; seguiram adiante para o portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular, pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo rosto em fios sangüíneos.

Quando chegamos ao portão, já nos esperavam os bondes especiais. Do outro lado da rua, à entrada do conhecido restaurante, apareceu a família do Aristarco com alguns professores, que lá tinham jantado. D. Ema, pelo braço do Crisóstomo, a Melica altivamente só e distanciada.

No colégio, tivemos ordem de subir a descanso nos dormitórios. Preventivo louvável de prudência, depois dos excessos e da tempestade sofrida. O descanso foi simplesmente um prolongamento da pândega do passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixamos ao salão geral. Aristarco, reassumindo a dureza olímpica da seriedade habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendíamos que a vida passasse a ser agora um piquenique perpétuo na desmoralização. Tacitamente negamos e a tranqüilidade normal entrou nos eixos.

Não sabíamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do grande passeio.

A hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas, sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de réquiem, tétrico como o Juízo Final, entrou o diretor.

Pausa preliminar, frêmito de sensação pelo refeitório: “Tenho a alma triste”, começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões no horizonte, restos da tormenta da tarde, faziam fundo às palavras em coro esquiliano.

“Tenho a alma triste. Senhores! A imoralidade entrou nesta casa! Recusei-me a dar crédito, rendi-me à evidência...” Com todo o vigor tenebroso dos quadros trágicos, historiou-nos uma aventura brejeira. Uma carta cômica e um encontro marcado no Jardim. “Ah! mas nada me escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, iludam-me! Está em meu poder um papel, monstruoso corpo de delito! assinado por

um nome de mulher! Há mulheres no Ateneu, meus senhores!” Era uma carta do Cândido, assinada Cândida.

(continua...)

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