Por Raul Pompéia (1881)
"Nasci na roça, muito longe do torvelinho detestável das praças... Os olhos da criança, profundo espelho das minhas saudades, mostravam-me o brilho das manhãs da minha mocidade... Eu via-lhe dentro das negras pupilas, a vivenda alegre de meus pais, a verde paisagem onde correram os meus folguedos de menino, a revoada das narcejas sobre a lagoa...
"Morava solitário e triste numa rua estreita e escura. Nos dias chuvosos, vivíamos num crepúsculo desagradável. A lembrança de minha mulher e dos dias felizes da família, cruciavame especialmente, nesses dias anuviados... Pois, era bastante um olhar da minha adorada Ema, um olhar! e as tristezas fugiam; das nuvens de chuva coava-se para mim um dia claro... Que se espessasse a valer o teto de chumbo da borrasca!... Para mim fazia sol!... No ar vibravam sutilmente, ao longe, notas de música, oscilantes e vagas... Nos olhos dela eu via o céu imenso e as andorinhas, muito alto, em chusma, brincando como sorrisos no azul.
"Ema valia todo o meu passado... Eu que apreciei a leitura e que fui amigo de acompanhar, do meu sossego, a novidade dos acontecimentos, o rumor da vida, nada mais lia que os poemas daquele olhar, nada mais observava que a vida intensa daqueles olhos queridos... Ema era a minha vida presente, como o meu passado...
"Morreu!...
"Também foi bom... A pobrezinha era feia... Morreu aos dezesseis anos. Vivia triste de se achar feia: ninguém havia de amá-la; tinha-lhe amor o pai; mas, pobres das que não são belas! era isso bastante?... Ema gostou de morrer: morreu sorrindo...
"Entretanto, Deus sabe, que magia celeste lhes morava nos olhos, que paraíso inefável Ema guardava ali nas pálpebras, onde eu às vezes me perdia extasiado, como se, realmente, se me soltasse o espírito para uma região alheia a este mundo, vasta, ilimitada, suavemente iluminada por um clarão difuso de estrelas."
Raul Pompéia
O PERFUME DOS BOLOS
Já lá vão seis anos...
Eu via sempre, por volta das dez horas, passar-me pela porta a pequena Berta.
Era a filha mais nova do meu vizinho confeiteiro.
Que linda Berta! Chamavam-na, por graça, a menina azul. Dava razão a isso o saiote azul, que ela trajava sempre, e o corpete de cabeção, azul ainda como a saia, e os olhos cor de céu e os louros cabelos quase brancos, com brilhos metálicos anilados, e, ainda mais, a coloração fina que sombreava-lhe a alvura da face, reflexo não sei se do corpete azul, se do azul luminoso dos olhos.
Perfeitamente encantadora, a criança...
À pequenina da minha rua, um freguês do confeiteiro comia bolos ao almoço.
Berta os levava.
Eu gostava de vê-la passar, trazendo nas mãos, à altura dos ombros, uma pequena bandeja, coberta por um guardanapo alvíssimo. Mais lindos sete anos, nunca vi, nem mais perfumosos bolos.
A menina passava, caminhando rápido; altiva e tímida como uma antílope. Os cabelos cortados rente, deixavam-lhe descoberta a nuca, móvel e branca como um pescoço de cisne. Após ela, ia o apetitoso perfume da massa tostada dos bolos, quentes e fumegantes ainda.
Berta atirava-me um sorriso de malícia inocente e ficava logo muito séria, quase ameaçadora. Eu lançava-lhe punhados de violetas, só para vê-la pisar as flores com o seu adorável desdém...
De repente, Berta desapareceu. Perguntei por ela. Morrera.
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O freguês da esquina ainda come bolos, ao almoço, como há seis anos.
O meu vizinho confeiteiro ainda os fornece como outrora.
Apenas já não os leva a menina azul.
Há seis anos que os portadores variam.
Atualmente, quem passa com os bolos, é um garotinho maltrapilho, que anda de cabeça baixa, desconfiado, olhando de través, com uns modos de cãozinho escorraçado...
Para mim, entretanto, apesar dos meus olhos, é Berta ainda quem os leva.
Quando o garotinho passa é a menina azul que eu vejo.
Aquele perfume de massa tostada e quente desperta-me ao vivo o risonho quadro das boas manhãs doutro tempo.
Distingo o olhar e o sorriso de Berta, os seus movimentos tímidos e altivos de antílope; vejo-a ainda pisando com o seu adorável desdém as minhas pobres violetas...
O garotinho, com certeza não sabe porque sorrio-me para ele, quando ele passa.
Responde ao meu sorriso com uma careta amável, ingênua e idiota...
Um destes dias, pediu-me um vintém...
Apesar de tudo, para mim, a portadora dos bolos continua a ser Berta, a menina azul.
Raul Pompéia
OS GATOS E OS CÃES
(Psicologia cano-felina)
Desde o histórico amigo do bíblico Tobias, que acompanhou-lhe o filho à miraculosa torrente d'onde devia sair o peixe destinado a curar a cegueira do patriarca, até os celebrados cães de S. Bernardo, passando pelo cão que lambia as chagas de Jó e pelo desrabado animal de Alcebiades; desde o heróico e selvagem companheiro dos esquimaus, que arrosta as temperaturas, levando em turbilhão o trenó, por meio das regiões brancas e frias do ártico, até o mole e macio King-charles, saboroso companheiro dos longos ócios tropicais das cocottes, tudo tem sido poemas em louvor do cão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.