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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Qual doido, Ângela! Qual doido! Você não sabe o que é a política.

— Homem, filho, eu não sei mesmo o que seja e nem quero saber. Se é como essa coisa do Cambuci, fresca história! É mesmo uma vergonha!

— Isso é política do Liberato. A minha política é outra... Você conhece o Doutor Macieira?

— Não.

— Aquele que arranjou o Lúcio na Escola dos Desvalidos.

— Que aconteceu com ele?

— Querem lhe tomar a chefia das Palmeiras.

— Mas ele não é do general?

— É, minha filha; mas tem muitos invejosos... Não falta quem o vá intrigar com o general...

— Eu não dizia, Lucrécio?

— O quê?

— Que esse general não prestava. O que ele fez com o “Velho” não é de homem bom; é de malvado... Ninguém mais pode fiar-se nele... Quem faz um cesto faz um cento - fique você sabendo.

Lucrécio nada respondeu. Deixou pender a cabeça sobre as mãos, apoiados os cotovelos no joelho, e esteve a olhar muito tempo o soalho encardido de sua casa velha.

Se Lucrécio se preocupava com a notícia, Macieira muito naturalmente havia de avaliá-la por todos os aspectos. O jornal que a estampara era um dos mais lidos na cidade, tinha grande prestígio nos meios políticos; e, certamente, se não traduzia um desejo de Contreiras, manifestava o começo do plano dos seus inimigos para tomarem-lhe o lugar. Na redação do jornal estava o José Pedro que nascera no Estado; mas nunca Macieira o viu com desejos de figurar na política e muito menos que fosse contra ele. Ao contrário: pedia-lhe informações, dava-lhe notícias tendenciosas e como patrício inteligente, freqüentava-lhe a casa como a de Contreiras que também nunca deixara perceber que queria ser qualquer coisa no Estado. Toda a gente, imaginava ele, quer ser político, e os meninos dos jornais não pensavam senão em sê-lo. Vêem os seus patrões deputados, senadores, escrevem também e se propõem também a sê-lo. Demais, a candidatura de Bentes foi imposta da mesma forma que a de Contreiras. Lançara-a um qualquer num jornaleco A Cimitarra, de uma cidade longínqua, começou a falar-se nela, tomou vulto e eles tiveram que aceitá-la. Aproveitou-a como salvação, agora, porém, estava vendo que a arma se voltava contra ele.

Arlete ainda não tinha saído do quarto e Macieira já se havia embrenhado mil vezes nessas considerações. Arlete que, tantas vezes, interviera para salvá-lo de dificuldades, agora lhe parecia impotente. Se estivesse em casa, seria pior... Quando acontecia surgir-lhe essas dificuldades matutinas, em casa de sua mulher, ele as achava mais difíceis. Dormir fora era para ele dormir na sua casa legal... Pensou em procurar Bentes, em pedir-lhe francas explicações do caso. Quem podia, porém, fiar-se em Bentes? Prometia e... Seria melhor rodeá-lo, correr aos amigos...

— Arlete!

— Que é?

— Já vou.

— Já, “mon cheri”? Que há?

— Querem me derrubar.

— Oh! Que coisa! “Mais, mon Dieu!”... É coisa assentada já, “cheri”? Que é?

— Não sei. Está aqui nos jornais...

— Qual! O país de vocês não presta para nada... É mesmo porcaria... Então você que é tão bom, vai sair! Será o general?

— Não sei, Arlete.

— É ele... “Sale type”!

Macieira vestiu-se apressadamente e encaminhou-se para a casa de Neves Cogominho. A situação delicada da política exigia movimentos rápidos, a ação pronta e o chefe da polícia de Sepotuba resolvera deixar Petrópolis. Habitava agora a casa de Humaitá, que ficava próximo da de Bentes, podendo em minutos alcançar este, aparar o golpe que lhe quisessem desferir. Neves Cogominho não aceitara a candidatura de Bentes com muita satisfação. O processo pelo qual o general se impusera, tirava a força e o valor políticos dele, Cogominho. Compreendia perfeitamente que ele e os seus colegas não tinham feito mais que ratificar uma escolha de quartéis e imposta sob disfarçada ameaça de uma revolução. Bentes estaria sempre disposto a apelar para a violência, para a coação da força, e desprezar portanto os conchavos de votos, as compensações políticas. Sentia como certo que o bastão de chefe ia escapar-lhe das mãos; sentia também que lhe escaparia da mesma forma se se tivesse recusado a homologar a imposição. Aderindo, simulando admirador de Bentes, ao menos podia salvar alguma coisa, se não de toda a sua autoridade política, ao menos amparar o genro que começava agora a carreira.

Até aqui Salustiano ainda não pudera avançar um passo; ao contrário, aproximava-se cada vez mais dele. Acreditava que isso fosse devido a conselhos de Bentes, pois que o general sempre dizia que a sua missão era harmonizar a família republicana. Certamente, Salustiano queria ser deputado. Neves Cogominho estava disposto a fazê-lo; e assim golpeava a efetiva oposição do seu Estado que festejava Salustiano para feri-lo. Na Câmara, Salustiano seria como os outros; e, não podendo dispor de empregos e concessões não organizaria um partido forte que pudesse abalar o antigo prestígio do sobrinho do venerando Frutuoso.

(continua...)

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