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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Não! minh'ama, desculpe, mas vosmecê não tem razão; antes de eu ir lá era pior: não podia dormir. Agora ainda eu descanso, e dantes? Vosmecê não tem razão. Eu sei que meu filho vem me buscar, e minha ama pensa que eu tenho medo? Não senhora. Se fosse ele só, eu ficava contente, mas é que, atrás dele, vêm muitos e são maus. querem a minha perdição; desses é que eu tenho medo. Se eu dissesse a vosmecê os conselhos que eles me dão, vosmecê havia de dizer que eu estava variando. Desses é que eu tenho medo, desses sim.

— Mas não te metas mais com aquela gente, confia em Deus, entrega-te a Nossa Senhora. Tu não sofres mais do que eu: perdeste teu filho, e eu?

— Nhá Violante está viva, pode voltar. Damião... esse...

— Está com Deus.

— Qual, minh'ama, isso é o que a gente diz.

E as duas continuaram ainda conversando.

CAPÍTULO XIII

Paulo, chegando ao Largo da Carioca, avistou Mamede num grupo, à porta do Café Paris. Lembrou-se de Ritinha: estava só, podia ir vê-la com segurança. O mulato não dera por ele — lá estava a falar, com largos gestos, sacudindo as abas de um cavour cinzento. Era cedo para o seu jogo, tinha tempo de chegar à estalagem — e foi caminhando para a Rua da Carioca. Passou um bonde apinhado, com as cortinas esvoaçando, e Paulo, hesitante, com receio de ser pilhado pelo mulato, já seguia para a esquina, a espiá-lo, quando o viu passar, apressado, entrando na Rua da Uruguaiana, "Ia para o Cordeiro..." pensou, mas, para certificarse, seguiu-o à distância, e só descansou quando o viu enveredar para a Rua da Conceição. Podia ir tranqüilo porque, ainda perdendo, Mamede só deixava a batota quando o banqueiro suspendia o jogo. Ficava peruando, a filar cigarros, esperando um amigo, um conhecido, que lhe emprestasse uns cobres e, quando saía, a pretexto de negócios, era para ir para a Rua do Ouvidor, pescar alguma coisa para tentar a desforra.

Entrou na confeitaria, escolheu doces, frutas e, tomando um tílburi, mandou tocar para a Rua do Riachuelo. Para o jogo era cedo, raros seriam os pontos àquela hora. Às vezes o Junqueira, para matar o tempo, arriscava-se a bancar o dado. A roleta só funcionava à noite.

A estalagem estava enlameada, com poças fundas, mas, apesar da chuva, o trabalho prosseguia. As lavadeiras lá estavam, dobradas sobre as tinas, cantando e esfregando a roupa. A máquina do alfaiate trepidava com fúria e, sob uma coberta de zinco, um velho amolador, em mangas de camisa, pedalava com lentidão, afiando um machado.

Antes de chegar à casa de Ritinha, ouvia-lhe o riso vibrante: tinha visita. Esteve um momento parado, protegendo os embrulhos sob o guarda-chuva, mas não querendo despertar a coscuvilhice daquela gente, entrou no pequeno jardim, e, abrigado sob a latada, que gotejava, pediu licença.

— Quem é? perguntou a mulata.

— Mamede está?

— Oh! É o senhor? Entre. Então precisa pedir licença? Mamede não está, mas é o mesmo.

Apareceu à porta, risonha. Uma crioula gorda, com a cara esfuracada pelas bexigas, levantou-se vexada, cumprimentando-o. Ritinha apresentou-a:

— Dona Castorina. É quem cose para mim. Fomos vizinhas muito tempo. Sente-se — e ofereceu uma cadeira ao estudante. — Bom tempo aquele! relembrou saudosa. Qual! eu ainda volto para aquela casinha, — disse com a cabeça pendida, alisando molemente os cabelos. — Tola fui eu em ouvir cantos de sereias... Podia estar muito bem.

A crioula arregalou os olhos e, sorrindo, acenou afirmativamente.

— A senhora não imagina como eu tenho saudades daquele lugar, a gente vivia independente, à sua vontade, não era isto! — e esticou um beicinho desprezível. — Não nasci para morar em cortiço. A gente tem casa e não tem: volta e meia é um vizinho pedindo uma coisa e outra. A senhora pensa? O que eles querem é meter o nariz na vida da gente. Comigo não! Eu passo por soberba, mas tanto se me dá como se me deu. Bom dia, boa tarde e acabou-se. Eu, não. A senhora não acha?

A crioula sorriu, já de pé, concordando:

— Ora! não há como uma casa: custa mais um pouco, mas a gente está sossegada. — E despediu-se desculpando-se: "Tinha ainda umas voltas..."

Estendeu a mão ao estudante e as duas caminharam para a porta, ficaram algum tempo cochichando, à risota.

— Cuidado com a lama. Vejam como está isto. Parece um chiqueiro.

E a crioula, abrindo o guarda-chuva, com a saia arrepanhada, despediu-se:

— Adeusinho! Apareça. — Sim.

Voltando-se repentinamente, a mulata fitou o estudante com um malicioso.

— Então, como vais?

— Eu, bem; e o senhor?

Paulo foi buscá-la à porta, enlaçou-a pela cinta, beijou-a. Ela recebeu-o com indiferença, deixando-se levar molemente.

— Estás zangada? — perguntou sentando-a nos joelhos.

— Eu, não. Por quê?

— Tão fria...

— Como queria o senhor que eu estivesse?

— Tu não és assim...

— Eu danço conforme tocam, — disse baixando a cabeça.

— É por que não tenho aparecido?

— Decerto.

— Se soubesses como tenho andado atrapalhado.

— Faço idéia...! Já acharam sua irmã?

— Qual! Escuta, disse ele, evitando o assunto: Pensaste no que te propus?

— Que foi? Não me lembro. — Vivermos juntos.

(continua...)

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