Por Coelho Neto (1890)
forme-se primeiro, tire a sua carta e depois publique quantas poesias quiser. Antes disso, nada. Noutro tom: É bom conservar-se na cama, ouviu...? Coma pouco e tenha o braço em repouso. Vou fazer a receita. Consultou o relógio: O diabo! Que é do papel?
— Cá fora.
— Tenho de ir ainda a Laranjeiras. Saiu para a sala e, pouco depois, tornou com o chapéu e o guarda-chuva: Até amanhã; eu passo aqui. Tem ainda febre, mas pouca... Vêm também umas cápsulas de quinino. Isto não é nada. Pode tomar o seu leite, pode comer o seu bifezinho com batatas e... forme-se, aceite o meu conselho, depois de formado, então, faça o que lhe der na cabeça. Até amanhã. Se houver alguma novidade mande-me um recado à casa.
— Obrigado, Teixeira! — disse Ruy Vaz acompanhando-o.
— Ora, obrigado... Quando sai o teu livro?
— Não sei ainda.
— Tu é que vais vivendo, heim?
— Pois não.
— Adeus! Vou ainda a Laranjeiras. Até amanhã.
— Até amanhã.
— Que homem gárrulo! — exclamou Anselmo vendo Ruy Vaz aparecer com a receita.
— É extraordinário! Esse Teixeira é tudo: filósofo, músico, político, poeta... O tal menino Alceu de que ele falou, que é um tipo acabado de cretino, é o seu testa de ferro. Quando o Teixeira quer impingir alguma das suas composições, apela para o pequeno. Eu conheço-o! Durante a minha moléstia ouvi todo um drama do menino Alceu. É um caso!
Oito dias depois Anselmo estava restabelecido, mas não pôde gozar a delícia da convalescença, porque o alemão rosnava pelo corredor, achando longa a demora do pagamento. Carlota, carrancuda, fazia a limpeza dos aposentos sem pronunciar palavra Estavam, de novo, sitiados. Uma manhã, muito cedo, Ruy Vaz levantou-se e começou a vestir-se apressadamente.
— Onde vais tão cedo, homem?
— Vou tomar banho. Estamos aqui, como Paris em 70: sitiados pela Alemanha. Sempre que vou ao banheiro o alemão agarra-me e pede-me, numa língua medonha, o mês da casa, porque estamos quase com o segundo vencido. Não estou para isso. Vou tomar o meu banho por ai, descansadamente, num banheiro magnífico.
— Onde?
— Por aí. Que diabo! O que não falta são casas vazias.
— Sim... E depois?!
— Como depois? Pois não percebes?! Levo daqui a toalha, o sabonete e o pente, peço a chave para ver a casa, tranco-me, corro ao banheiro, regalo-me, torno à venda, entrego a chave, tomo informações sobre o senhorio e aí está. Queres vir?
— Vou. Também não tenho coragem de falar ao alemão e coro diante de Carlota. Saíram.
A vida, porém, tornava-se cada vez mais apertada e difícil. Para não encontrarem o alemão, entravam tarde, pé ante pé, e saíam cedo. Ruy Vaz, por fim, extenuado, instalou-se no palacete do visconde de Montenegro, retirando, a pouco e pouco, os livros, os quadros flamengos, A Barricada e outros pequenos objetos. Anselmo, só, ia curtindo a fome.
Uma noite, muito enfraquecido, pôs-se a procurar nas estantes desfalcadas alguns livros que lhe pudessem dar qualquer coisa: só restavam romances e alguns poetas ingleses. Lembrou-se, então, da caixa de música... Se a empenhasse? Estava perfeita, podia dar dinheiro — tomou-lhe o peso, era grande, mas como tinha um níquel, podia levá-la no bonde até à rua Gonçalves Dias e dali, nos braços, à casa de penhores. Decidiu-se e, não ouvindo rumor na casa, estando a família à mesa, saiu, pé ante pé, com o precioso fardo e, alcançando a rua, apressou o passo receoso de que o vissem.
Na cidade correu imediatamente à travessa de S. Francisco, embarafustou por um dos compartimentos e, repousando a caixa de música, propôs o penhor por três meses. O homem, muito sisudo, fez um momo rosnando: Que aquilo não valia a pena.
— Está perfeita? — Pois não.
Ele pôs-se a examinar, deu corda. As molas perras rangeram, mas o cilindro girou e a ária da Jolie parfumeuse tilintou alegremente naquele canto mal alumiado.
No cubículo contíguo uma velha resmungava.
Anselmo teve uma grande emoção ouvindo aquela ária alegre que lhe recordava os doces tempos da vida tranqüila, no seio da família. As noites calmas, quando o velho pai, estirado no canapé, enquanto a mamãe cosia à luz do lampião de querosene e o gato resbunava pela sala, mandava vir a caixa de música e adormecia ouvindo as peças que se sucediam vivamente: Les Porcheron... Ainda...
Ó doce tempo!
O homem teve de perguntar duas vezes:
— Quanto quer?
O estudante, com os olhos úmidos, andava pelo passado, revendo a ventura para o sempre perdida.
— Quanto quer?
— Veja quanto me pode dar.
— Eu não costumo receber estas coisas... Enfim: vinte e cinco mil réis, serve?
Ele sentiu um sobressalto, mas emendou:
— Trinta.
— Não; mesmo ela precisa de uma limpeza em regra. Vinte e cinco. — Vá lá...
O homem encheu a cautela entregando-a a Anselmo com o dinheiro depois de lhe haver apresentado à assinatura um livro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.