Por Raul Pompéia (1881)
O realejo executava, então, uma outra peça. Tinha o mesmo tom vagaroso e triste, como se estivesse combinado para acompanhar os preparativos sombrios do escravo.
IV
À beira do caminho havia um tronco notável, que estendia acima da estrada um galho musculoso como um braço enorme, terminando como um punho colossal, fechado e ameaçador.
O escravo subiu e sentou-se tristemente sobre os músculos magníficos desse braço hercúleo. Lançou alguns olhares para o seu bastão, que ficara lá embaixo. O único companheiro e o derradeiro amigo.
Enfiou depois o pescoço no colar sinistro da sua corda. Prendeu-lhe a outra ponta ao punho arrogante, fechado para o céu...
V
O céu brilhava azul, como um pensamento de criança: e, no meio das bonanças harmoniosas daquela tarde serena, voava, macia como uma nuvem tênue, a solfa queixosa do realejo.
Aquela música!... aquela tarde...
O velho escravo levantou os olhos, do bastão, para o espaço; foi, sem tremer, até a ponta do galho que o sustinha, e escorregou...
VI
Naquele instante, o realejo tocava para os meninos da povoação as harmonias patrióticas do hino nacional...
Raul Pompéia
OLHOS
Era um comprido velho, magro, de longos braços, pendentes como esses ramos dos pinheiros, que as gravuras representam debruçados às escarpas, sobre catadupas, ou sobre abismos. Rigorosamente trajado de preto, cismador e melancólico, produzia-me o mesmo efeito das lutuosas árvores das paisagens setentrionais.
Ao lado dele, em violento contraste de cor, vestida de branco, numa toilette refolhada de musselina, com um laço negro, a prender os cabelos, caminhava uma menina.
O velho acariciava a criança, sob um olhar de ternura; a menina com a cabeça muito voltada, porque o velho era alto, sorria para ele e segurava-lhe a grande mão descarnada nas suas pequeninas, alisando-lhe com amor os dedos, delicadamente.
Aproximaram-se.
O velho, apesar dos cabelos brancos, não o era tanto, de perto, como me parecera, à distância. Dir-se-ia encanecido pelas neves de um inverno precoce, adiantado pelos dissabores da vida; a que resistira, entretanto, a relativa frescura da fisionomia.
A menina era graciosa, mas feia. Devia ter sete anos. Aparentava trinta, com aquele arzinho de senhora e o rosto moreno, magro, de maçãs pronunciadas e os olhos rasgados, pensadores, como desiludidos há muito dos enganos da infância.
Passaram por mim; o velho cortesmente, cumprimentou-me com uma inclinação de cabeça. A criança imitou com graça a cortesia do velho. À primeira curva da alameda, sumiram-se, devorados por uma escura garganta de bosque.
Vi-os, essa vez, no Passeio Público. Tornei a vê-los no dia seguinte. Vi-os depois, todos os dias, por muito tempo, até que, mudando-me para longe, deixei de visitar, pela manhã, o deleitoso Jardim do Boqueirão.
Agora, há dias, dez anos decorridos, passando casualmente, de bonde pela rua do Passeio, às 8 horas, às horas do flânerie matinal do outro tempo, deu-me vontade de entrar no jardim.
Caminhando ao acaso, satisfeito de sentir a brisa do mar, que chegava muito fresca, através das árvores; e o festivo sol domingueiro peneirado dos ramos, traçando arabescos dançantes na areia, ao acaso, fui dar com o banco de pedra onde outrora sentava-me e do qual via passar o velho alto, de braços pendentes e ar melancólico de pinheiro das montanhas, com a criança de branco, de sete anos e grandes olhos pensadores...
Como fazia, outrora, sentei-me e fiquei a pensar nas cousas todas do meu passado que se ligavam à recordação dos passeios, tornando a ver, em toda a realidade representativa da cisma, o velho de preto a passar e a criança.
Assim estava eu, quando senti que alguém pousava a mão sobre o meu ombro.
Volto-me bruscamente. Um homem estava ao meu lado. Sentado como eu, olhava-me.
E quem havia de ser?! O velho!... o velho dos meus antigos passeios! O mesmo homem de preto, magro e alto com a mesma expressão desolada das árvores dos montes!...
- O senhor! exclamei, com um espanto fácil de calcular.
- Eu mesmo, caro senhor... Reconheço-o, tal qual o senhor me reconhece.
- Parabéns ao acaso, que me fez encontrá-lo... uma pessoa que conheci em dias agradáveis domeu passado!...
- O seu encontro, infelizmente a mim, só me desperta recordações amargas...
- Recordações amargas...
- Recordações dolorosas... Tão dolorosas que me levaram a importuná-lo... É quase doçura aconfidência dos pesares... E o senhor que me viu com ela bem pode compreender-me... Lembra-se da menina?...
- Lembro-me... aquela gentil criança...
- Tão meiga, tão boa... morreu!... A minha Ema...
"Quando, outrora, nos encontrávamos aqui, eu vinha com ela a passeio... Queria distraí-la da lembrança da mãe, que tudo, tudo em casa recordava... a pobre morta que me deixara a inocente... Aquela filha era a minha vida. A luz daqueles olhos bania as sombras da minha sorte. Minha pobre alma vivia naquele raio de olhar como vivem as cores do íris, numa réstea de sol.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.