Por Camilo Castelo Branco (1862)
Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O comandante lançou-lhe os braços, e disse:
— Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar crêem em Deus! Espere que o céu se abra para si pelas súplicas daquele anjo!
Mariana estava um passo atrás de Simão, e tinha as mãos erguidas.
— Acabou-se tudo!... — murmurou Simão. — Eis-me livre... para a morte... Senhor comandante — continuou ele energicamente — eu não me suicido. Pode deixar-me.
— Peço-lhe que se recolha à câmara. O seu beliche está ao pé do meu.
— É obrigatório recolher-me?
— Para vossa senhoria não há obrigações; há rogos: peço-lhe, não mando. — Vou, e agradeço a compaixão.
Mariana seguiu-o com aquele olhar quebrado e mavioso do Jau, quando o poeta desembarcava, segundo a idéia apaixonada do cantor de Camões. Encarou nela Simão, e disse ao comandante:
— E esta infeliz?
— Que o siga... — respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.
Simão recolheu-se ao beliche, e o comandante sentou-se em frente dele, e Mariana ficou no escuro da câmara a chorar.
— Fale, senhor Simão! — disse o comandante — desafogue e chore.
— Chorei, senhor!
— Eu não tinha imaginado uma angústia igual à sua. A invenção humana não criou ainda um quadro tão atroz. Arrepiam-se-me os cabelos, e tenho visto espetáculos horríveis na terra e no mar.
Acintemente, o comandante estava provocando Simão ao desabafo. Não respondia o condenado. Ouvia os soluços de Mariana, e tinha os olhos postos no maço das Cartas, que pusera sobre uma banqueta. O capitão prosseguiu:
— Quando em Miragaia me contaram a morte daquela senhora, pedi a uma pessoa relacionada no convento que me levasse a ouvir de alguma freira a triste história. Uma religiosa ma contou; mas eram mais os gemidos que as palavras. Soube que ela, quando descíamos na altura do Oiro, proferia em alta voz: — "Simão, adeus até à eternidade!" — E caiu nos braços duma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a trouxeram meio-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma palavra mais lhe ouviram. Depois, contaram-me o que ela penara em dois anos e nove meses naquele mosteiro; o amor que ela lhe tinha, e as mil mortes que ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria. Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é!
— Por pouco tempo... — disse Simão, como se o dissesse a si próprio, ou a própria imaginação estivesse dialogando consigo.
— Creio, creio, por pouco tempo — prosseguiu o capitão — mas, se os amigos pudessem salvá-lo, senhor, eu dar-lhes-ia na Índia mais fiéis que em Portugal. Prometo-lhe, sob a minha palavra de honra, alcançar do Viso-Rei a sua residência em Goa. Prometo segurar-lhe um decente principio de vida e as comodidades que fazem a existência tão saudável como ela é na Ásia. Não o intimide a idéia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por vencer-se, e será feliz!
— O seu silêncio, por piedade, senhor... — atalhou o degredado.
— Bem sei que é cedo ainda para planizar futuros. Desculpe à simpatia que me inspira a indiscrição, mas aceite um amigo nesta hora atribulada.
— Aceito, e preciso dele... Mariana! — Chamou Simão. — Venha aqui, se este cavalheiro o permite.
Mariana entrou no quarto.
— Esta mulher tem sido a minha providência — disse Simão. — Porque ela me valeu, não senti a fome em dois anos e nove meses de cárcere. Tudo que tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta criatura. Seja respeitável ao seus olhos, senhor, porque ela é tão pura como a verdade o deve ser nos lábios dum moribundo. Se eu morrer, senhor comandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se ela fosse minha irmã. Se ela quiser voltar à sua pátria, seja o seu protetor na passagem. — E, estendendo-lhe a mão, disse com transporte: — Promete-me isto, senhor? — Juro-lho.
O comandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com Mariana.
— Estou tranqüilo pelo seu futuro, minha amiga.
— Eu já o estava, senhor Simão — respondeu ela.
Não se trocam palavras por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a mesa, e apertou com as mãos as fontes arquejantes. Mariana, de pé, ao lado dele, fitava os olhos na luz mortiça da lâmpada oscilante, e cismava, como ele, na morte. E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.
CONCLUSÃO
As onze horas da noite, o comandante recolhera-se num beliche de passageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre os joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivas horas daquele dia.
Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente de um arame. O ouvido têlo-ia, talvez, atento a um assobio da ventania: devia de soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, voz única no silêncio da terra e céu.
A meia-noite, estendeu Simão o braço trêmulo ao maço das cartas que
Teresa lhe enviara, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que era dela.
Rompeu a obreia, e dispôs-se no camarote para alcançar o baço clarão da lâmpada.
Dizia assim a carta:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.