Por Lima Barreto (1911)
Bogoloff, velho anarquista, compreendia que se pusesse em dúvida a lei, que se a condenasse; mas querer o Estado sem lei, admitir o despotismo como progresso, não querer restringir o governo, era absurdo, que não compreendia em inteligências tão medrosas da palavra rei ou imperador.
De resto, aquela superstição de virtudes especiais do militar tinha uns restos de concepção de nobreza, de classe privilegiada, muito de admirar na mentalidade de um republicano.
Alongava-se o russo nessas considerações quando o cansaço mental levouo a ler um jornal. Ele os lia durante as horas que administrava a Pecuária Nacional, com vagar e distraído. Na primeira leitura, não lhe tinha caído sob os olhos aquele trecho. Leu:
“Agita-se agora a sucessão presidencial do Estado das Palmeiras. Com a resignação do cargo pelo senador Macieira, presidente eleito, a curul governamental daquele Estado, deve ser preenchida brevemente, por meio de eleição. A abandalhada oligarquia que faz a infelicidade daquela terra, quer levar para o palácio das Pitangueiras a inválida figura do deputado Malaquias. Há nisso uma indecente manobra de Macieira. Não estando certo de que maneira o honrado general Bentes irá proceder com estas pustulentas oligarquias, resignou o poder para ficar aqui no centro, neutralizando a ação purificadora do governo que vem; enquanto isso, punha lá Malaquias, tio-avô da esposa do futuro presidente. Nós nada temos a dizer quanto ao Sr. Malaquias, a não ser que é uma figura apagada na política; mas, quem devia ir reger os destinos de Palmeiras, era o Coronel Contreiras, também parente do honrado general Bentes, possuidor como ninguém de uma brilhante fé de ofício com o curso de estado-maior, e engenharia, tendo no peito medalhas que muito recomendam os seus serviços de guerra. Além de tudo, o coronel Contreiras é um homem honesto, que tem vivido até agora do seu soldo, apesar de ter passado por boas comissões, e é filho do venerando José Maria”.
Esta notícia, ou como se diz nos jornais, esse “suelto”, fora lido com espanto por todos os que se interessavam pela política. Desde dez ou quinze anos que se perpetuavam na presidência do Estado das Palmeiras os apaniguados de Macieira e o próprio Macieira, não tentando ninguém disputar-lhe a indicação. Tinha-se o fato como uma lei e aquela lembrança que não podia ser Malaquias, mas Contreiras, longe de ser tomada como uma coisa sem valor, ganhou importância e foi discutida.
Lucrécio Barba-de-Bode que ainda descansava dos muitos vivas que dera a Bentes, quando foi a um prado de corridas, leu a notícia em casa, pois agora mais se demorava nela pela manhã em fora.
Morava na mesma casa da Cidade Nova e tinha as mesmas pessoas em sua companhia, exceto Bogoloff que resolvera morar numa pensão do Catete, depois de ter sido feito Diretor da Pecuária.Quisera este obter para Lucrécio um lugar na sua diretoria, mas só os havia de escriturário e Barba-de-Bode não quisera aceitar, por não saber escrever correntemente.
Totonho tinha prometido colocá-lo definitivamente desde que Campelo se firmasse. Era bem possível que o doutor viesse a ser ministro, e, em o sendo, Lucrécio ficaria arranjado de vez. Totonho pedia-lhe que esperasse pacientemente; fosse tenteando com o lugar de “encostado” e ele o fazia fiado nas palavras de Totonho e na estrela do Dr. Campelo.
Com o tempo Lucrécio ganhara certa inteligência política. Ele que, a custo, tinha ido até a tabuada, ficou sabendo muito da difícil arte de governar os povos. Passara muito além a sua inteligência do capítulo dessa arte que trata das desordens nas eleições e “meeting”, com assassinatos conseqüentes: Lucrécio já compreendia certas manobras da alta estratégia dos deputados.
Lendo a notícia, lobrigou Barba-de-Bode alguma coisa de anormal nela.
Como toda gente, ele estava habituado a considerar Palmeiras como sendo de Macieira, porque cada Estado era de certos e determinados que o presidente dava. Não se dizia até que Bentes tinha dito ao Crescêncio:
—“Doutor, não lhe posso fazer ministro; mas dou-lhe o Sernambi.”
Palmeiras era de Macieira desde muito tempo; Bentes tinha confirmado a doação — como é que agora o presidente que Macieira queria para o Estado podia sofrer contestação. Ele sabia perfeitamente que a propriedade desses homens é sempre disputada. Ninguém lhes disputa a casa, o casaco, as jóias; mas os Estados, há sempre uns galfarros que lhes disputam. A Neves Cogominho era Salustiano; mas o Macieira ele não sabia quem fosse. Conhecia o coronel Contreiras... Era um oficial limpo, alto, severo... Que ele se metesse em política, Lucrécio não sabia. É verdade que Bentes... Mas Bentes! Bentes tinha o exército em peso...
— Não é possível! Não é possível!
E atirou com zanga o jornal para o lado. Apanhou-o ao fim de algum tempo. Leu o tópico de novo e de novo exclamou:
— Não é possível! Não é possível! É intriga!
A mulher, que trabalhava na cozinha, não se conteve e observou lá de dentro.
— Você está doido, Lucrécio!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.