Por Coelho Neto (1906)
orvalhando o oleado da mesa. Paulo desceu a vidraça, murmurando contra aquele tempo inconstante. O céu estava completamente encoberto, não havia mais esperança de sol, e o mar, enfurecido, estrondava d'encontro ao cais.
— Vais sair com este tempo?
— Que remédio!
— Mas almoças primeiro? — Almoço.
Recolheu-se ao quarto e, com a toalha úmida pelos ombros, esfregando as mãos, ficou a pensar no jogo que devia fazer. Antes, porém podia dar um pulo à estalagem: prometera um presente à Ritinha; ao mesmo tempo resolveriam sobre a mudança, traçando o programa amoroso da vida em comum, num cantinho que ele mobilaria com gosto, onde poderia passar parte das noites gozando os carinhos dengosos da mulata. Pôs-se a assobiar, indo e vindo no acanhado aposento, até que ouviu uma badalada de sino. Meio-dia! Ficou espantado e, às pressas, como se o chamassem negócios, atirou longe a toalha e começou a vestir-se azafamadamente. Ainda atava a gravata, quando abriu a porta e bradou: — Olhe o meu almoço, mamãe.
À mesa, preocupado, mastigava maquinalmente, d'olhos parados, balançando as pernas. Dona Júlia notou-lhe a distração.
— Tu não estás aqui, Paulo.
— Senhora!? — exclamou ele, como se houvesse sido despertado.
— Estás tão distraído...
— Pensando na vida.
— Pois sim, mas come descansado. Essa comida, assim, não sustenta. Há tempo para tudo.
— Fala-se em um concurso na Secretaria do Exterior, — disse abruptamente. — Estou com vontade de entrar. — Baixou os olhos e, de cotovelos fincados na mesa, a cabeça nas mãos, ajuntou: Só assim eu me veria livre desta canalha. Somos nós dois apenas... — Dona Júlia olhava, sem compreender o que ele dizia. Mamãe não tem vontade de ver a Europa?
— Eu? Sair daqui? Deus me livre! Que vou eu buscar na Europa?
— Ora, que vai buscar... Pois eu ando a pensar nisso. A diplomacia foi sempre o meu ideal. Que futuro tenho eu aqui?
— Pois não estás estudando medicina?
— Ora, médicos há-os por aí aos centos, pedindo empregos públicos. Não vale a pena perder seis anos em uma Academia para andar, depois, atrás de ministros, implorando um lugar de amanuense. Demais, com essa história de Violante, não tenho coragem de voltar à faculdade. Enfim...
Levantou-se, foi à janela olhar através dos vidros embaçados.
— Deus me livre de sair daqui — resmungou Dona Júlia, raspando da toalha umas migas de pão. — Não abandono minha filha, isso nunca!
Uma cena estranha, que se passava à porta da cozinha, levou a atenção dos dois para aquele ponto. Felícia, ajoelhada na soleira, à chuva, a cabeça toda para trás, os braços abertos em cruz, olhava enlevadamente o céu, a chorar. De instante a instante esmurrava o peito suspirando agoniadamente. Os dois olhavam embasbacados, e a negra, sem dar por eles, continuava naquele êxtase, supliciando-se.
— Que tem Felícia, mamãe?
— Não sei.
— Essa rapariga não anda boa.
— Parece que, com a morte do filho, a coitada ficou sofrendo. — De que morreu ele?
— Morreu na revolta. Dizem que foi degolado. Era marinheiro.
— Felícia! bradou o rapaz.
A negra voltou a cabeça, espantada e, vendo-o, levantou-se e desapareceu. Ele foi à cozinha, já a encontrou junto ao fogão, enrolando a trunfa.
— Que história é essa, Felícia? Fizeste alguma promessa? Perguntou a rir.
— Não ria, nhonhô... Vosmecê é muito criança ainda, está começando a viver. Não ria, não.
— Mas que tens tu?
— Que é que eu tenho? Eu sei, meu senhor? Olhe, nhonhô, — explicou com mistério, chegando-se muito ao rapaz, para que ele lhe ouvisse bem as palavras: A gente está aqui e está lá. Não é a alma dos outros que vem, é da gente que vai. Quem morre descansa, quem está vivo é que vai mexer com os mortos. O cemitério é como uma casa de marimbondos: vosmecê passando quieto, os bichinhos não mordem, mas bulindo... — e curvou-se, arregalando muito os olhos, a fitar o rapaz.
— Eu fui bulir... — concluiu, encolhendo os ombros com resignação.
— E os maribondos caíram em cima de ti. — É, sim senhor.
Paulo não conteve o riso e, rindo, tornou à sala.
— Que tem ela? perguntou Dona Júlia.
— Disse que os mortos são como os maribondos. Foi bulir com eles e não a deixam.
Depois da saída de Paulo, Dona Júlia, que logo atinara com a causa da "maluquice" da negra, foi ter com ela e pôs-se a dar-lhe conselhos. "Que se deixasse de espiritismo. Não acreditasse naquelas comédias, visse o exemplo das outras. Se quisesse fazer alguma coisa pela alma do filho, mandasse rezar uma missa. Aquilo era uma exploração, uma vergonha que a polícia devia proibir." A negra protestou, defendendo a sua crença:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.