Por Coelho Neto (1890)
— Ah! Meu amigo, a literatura, entre nós, não dá para o charuto. O nosso povo não lê por indiferença e por indolência, nem tem ainda o espírito preparado para compreender a obra da Arte. O que ele quer, por enquanto, é o maravilhoso: está ainda no período infantil do deslumbramento. Quais são os romances preferidos? São os de complicado enredo, os magnificentes, os emaranhados que não passam de ampliações de contos de fadas para crianças grandes. Não há ainda o critério estético; não sei se posso dizer assim. O leitor não se preocupa com a substância nem com a forma; a inverosimilhança é o seu ideal, quanto mais irreal melhor. Dê o senhor a um homem um bom estudo de caracteres e uma fábula bem lantejoulada que ele não hesitará um momento. Se os senhores quisessem tentar o gênero Ponson, isso sim... mas psicologias... hum! Voltou-se para Ruy Vaz, caramunhando: Agora, eu te digo: também não vou muito com as tais psicologias. A ciência tem o seu lugar no real; o romance faz-se de sonhos e, até para o equilíbrio intelectual, acha necessária a discriminação — a cada um o que lhe cabe: ao sábio, a investigação; ao poeta, a fantasia. Cada macaco no seu galho. Eu, por exemplo, depois de um livro científico gosto de repousar em uma página de Dumas ou de Mery, como depois de umas horas de trabalho no meu gabinete, sinto-me bem no meu jardim, olhando as flores, ao fresco da tarde. É um alívio. Não posso com as tais psicologias, são quase sempre falsas — os autores não estudam caracteres, fazem-nos para as situações que imaginam. Há coisas absurdas... Por exemplo... Ia demonstrar a existência das "coisas absurdas", mas Ruy Vaz puxou-o pela manga do casaco:
— Não; tem paciência: vem receitar primeiro. Quando começas com a literatura, não te lembras de mais nada. Ainda, que o rapaz está aí que não pode.
— Espera, homem; pediu o médico pachorrentamente.
— Não, temos muito tempo, receita primeiro.
— Não há pressa; já estou melhor, disse Anselmo.
— Isso não é nada. Levantou-se, deu um puxão ao colete e, coçando o pescoço, com a cabeça derreada, repetiu: Pois é isto: no Brasil ninguém Vive de letras, isto é um país sem tradição, sem fastos. Quer saber? O Brasil começou escravo, ganhou a liberdade e fez-se traficante e comboieiro, depois atirou-se a um balcão de negócio, não teve tempo de aprender a ler: é um analfabeto milionário. É possível que os netos venham a interessar-se pelas coisas intelectuais, mas por enquanto, meu amigo, só há uma preocupação — o café. Qual é o homem de letras que, entre nós, vive exclusivamente da pena? Qual é? Nenhum...
— Mas vem receitar, homem! — insistiu Ruy Vaz.
— Já vou. Nenhum... E não é por falta de talento, aqui há tanto talento como em França, ou mais! Confirmou atirando um gesto violento: Ou mais! O senhor vê por aí rapazolas, sem exame de português, fazendo versos que espantam. Meu sobrinho, o Alceu... tu conheces, Ruy... é um menino! Tem quatorze anos... pois escreve poesias que admiram. Aquela que ele publicou, a propósito do 28 de Setembro. Cravou os olhos em Ruy Vaz. Não te recordas...? — Sim, sim...
Não satisfeito com a afirmação do romancista, o médico, unindo o polegar e o índex, numa voz melíflua, pôs-se a recitar pausadamente, balançando o corpo, fazendo sentir as rimas:
Salve! emérito visconde
Que hoje nos meus versos lembro,
Pai dessa lei de Setembro Que os ventres santificou, Salve! herói...
E por aí vai. Não te lembras? Vai agora fazer exame de português. É o que eu digo: no Brasil há talento de sobra... Encaminhou-se para o lavatório e pôs-se a remexer como se procurasse alguma coisa.
— Que queres?
— Vocês não têm por aí uma tesourinha de unhas?
— Tem cá fora.
— Pois é como eu digo. Forme-se, o senhor está no terceiro ano, pouco falta; forme-se, tire o seu diploma e depois, nas horas vagas, escreva o seu soneto, a sua quadra, mas ouça a palavra de um experimentado: não queira viver de literatura: o verso não paga a casa nem corre no armazém. Olhe o Alceu... Eu acho que ele tem talento, mas estou sempre a dizer ao pai: "Acaba com essa mania do pequeno enquanto é tempo, antes que se torne um vício, porque depois, meu amigo..." Mas não, acham graça... Dá em poeta e hão de ver o bonito. Vamos lá à receita.
— Ora graças a Deus! — exclamou Ruy Vaz.
— Homem, deixa-me prosar um bocado, também não é só Medicina. Isto não é nada. Amanhã está pronto. Vem uma pomada e uma poção para tomar aos cálices. Amanhã ou depois está pronto.
— E se eu piorar, doutor?
— Qual piorar! Isto não é nada. Em todo o caso, amanhã dou um pulo aqui...
e trago-lhe os versos do Alceu, quero a sua opinião. O pequeno tem jeito, vai ver. Versos no gênero dos de Castro Alves, sabe? E recitou soturnamente:
É a hora das epopéias, Das ilíadas reais...
Conhece? Pois amanhã trago-lhe os versos. Mas nada disso, nada disso:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.