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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de São Fidélis, especialista invicto da carreira, corredor de prática e princípios, que de cada exame da Instrução Pública fugia duas vezes à chamada, entendendo que a fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção artificial dos que não podem correr.

Rômulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho, sufocado, inanimado, roncando por terra.

Almoçamos às dez horas, cada um para seu lado, depois da distribuição frugal do mantimento. Fartos de paisagem, formamos para a descida.

Descida penosa. Tínhamos imprudentemente esgotado as forças na folgança. A marcha de volta foi uma miséria. Formamos ainda, mas já não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas escapavam à cintura, as blusas às correias; os pés cambavam, mal equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bêbado.

As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o diretor, segurando-se uns aos outros pelos ombros, seguindo em grupos atropelados como carneiros para a matança. Aristarco, tão lépido como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas ironias.

Quis recorrer ao estimulante da música. Os músicos, derreados, haviam deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem tambores, nem clarins; apenas Rômulo, atrás de todos, trazia o bombo de roldão pela estrada como uma pipa.

Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós, acendendo reflexos insuportáveis na areia da estrada, enquanto reverberava o dia lá embaixo, sobre as casas, pelos jardins nublados de vaporizações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a florescer das tristes flores da Paixão da aleluia.

Voltávamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha decompôs-se aos poucos. Quando chegamos ao Rio Comprido, íamos por bandos dispersos, arquejantes, os de maior fôlego na vanguarda; depois, em cauda interminável de alquebramento, os mais fracos, até aqueles que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspetores buscavam como gado perdido.

No portão do Ateneu, mãos às cadeiras, dentinhos brancos à vista, esperavanos Ângela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas aquela entrada de vencidos, homens e moços.

Quando, tempos passados, anunciou-se o grande piquenique ao Jardim Botânico, certo não foi objeção a lembrança deste descalabro de fadiga. Tínhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao jardim. Prontos!

Ao meio-dia, apeava o Ateneu dos bondes especiais à porta do grande parque. Atravessamos cantando um dos hinos do colégio as arcarias elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandamos.

No bosque dos bambus, à esquerda, estavam armadas as longas mesas para o banquete das quatro horas. Graças à boa vontade dos pais, prevenidos oportunamente, vergavam as tábuas, sobre cavaletes, ao peso de uma quantidade rabelaisiana de acepipes. À parte, em cestos, no chão, amontoavam-se frutas, caixas e frascos de confeitaria.

Era por um desses dias caprichosos, possíveis todo o ano, mais freqüentes de verão, em que as bátegas de chuva fazem alternativa com as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que, parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.

Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita umidade na relva e sob as folhas caídas; às alamedas de mais sombra, via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos frutos que cava o gotejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no intervalo dos nimbos, que não podiam apreensões de aguaceiro entibiar a franqueza de alegria a que estávamos preparados.

A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os canaviais e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzóis, acocoravamse à beira do açude, como batráquios, enquanto esperavam que picasse a probabilidade difícil de um peixe.

Os de espírito calmo buscavam sítios de soledade, iam passear a cisma silenciosa; os sentimentais, com o instinto dos fotógrafos paisagistas, ensaiavam, comparavam, aplaudiam os melhores pontos de vista, ou, simplesmente, dois a dois, íntimos, seguiam para longe, braços pela cintura, balbuciando diálogos lentos. Os menores corriam, armando animadíssimos brincos, atiravam-se às borboletas, iam pelos cursos d’água canalizada através do parque, perseguindo a fuga de um graveto, trépido, inalcansável na evasão rápida da linfa. Nos enredamentos obscuros do bosque, exatamente onde o artista grego incluiria um sátiro, podia-se surpreender sob uma blusa o confiado abandono bucólico de outros colegas.

De quando em quando, um sinal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.

Às quatro horas a banda de música assinalou com o hino nacional o grande momento da festa campestre.

De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de uniformes brancos. Os vigilantes, enérgicos, regularizavam a ocupação dos lugares.

(continua...)

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