Por Raul Pompéia (1881)
Em princípio, ele era pequenino; uma ligeira elevação de carne infantil, macia como a polpa de um fruto esquisito; tinha um biquinho, rubro como uma cereja microscópica; tinha dous anos, então: recebia as carícias maternas de uns lábios ardentes e amorosos.
Foi crescendo... crescendo...
Já lhe notavam tendências para a bela forma redonda. A carne branca, polpuda, elevava-se pouco a pouco.
Foram-no cobrindo, zelosamente de cambraias e fitas.
Em pequenino, andava tantas vezes nu, gozando o contato suave do ar livre e fresco a passarlhe pela epiderme. Exatamente quando mais lindo ficava, é que o queriam esconder como uma cousa indigna.
Este escrúpulo avultava com o tempo.
Esconderam-no cada vez mais, e cada vez mais, do fundo do seu retiro de linhos e cambraias finíssimas, o indiscreto erguia-se, cercado de rubores incertos e nômades, que percorriam-lhe a epiderme, semeando calor; erguia-se como quem sabe que vai a fazer-se sedutor e deseja que o vejam e o adorem...
Mas a cruel cambraia subia também, com uma impertinência ciosa e avara; o pobre via-se condenado àquela prisão cálida e escura, que o sufocava ferozmente.
Ah! quem lhe dera sentir as auras frescas da tarde e os orvalhos da madrugada; viver à luz dos sóis e dos luares, despido, desembaraçado e nu, como os jambos rosados e venturosos!...
Despiam-no, é certo, mas unicamente para respirar o ambiente morno e viciado das alcovas.
Era nessas ocasiões que ele via como estava belo; mirava-se nas banheiras e nos espelhos, namorava-se como um narciso, o pobre...
E como torturavam-no, depois, aquelas faixas com que o comprimiam!
Parece que havia empenho em deformá-lo, contrariando a natureza que o aviventava.
Entretanto, ele resistia e triunfava!
A delicada forma cônica dilatava-se-lhe, encurvava-se, sobressaía com a íntima energia de um botão de magnólia que vai desabrochar em largas pétalas. Sedutor cada vez mais.
Tornou-se tímido. O recato da cambraia que o contrariava agrada-lhe então.
O próprio ambiente morno da alcova parece feri-lo com um contato sacrílego.
O sofrimento que então o tortura já não é a contrariedade daqueles panos que o abafavam.
O sofrimento consiste em pancadas íntimas, violentas, que o agitam e mortificam.
Está amando, o pobre...
Por fim, expande-se.
Rasgam-se os linhos e as cambraias, e dous lábios impetuosos, sedentos, vão lá ao fundo violar o recato do amante misterioso e invisível.
Mudou-se-lhe de todo a natureza, ele engorgita-se em plena maturidade.
Uma criaturinha vem sofregamente sugar-lhe a seiva e nutrir-se dele como a parasita que vive da vitalidade alheia...
..................................................................
Então começa a decadência.
O belo seio, outrora rijo de virgindade e frescura, estremecendo às emoções elétricas do amor, desprende-se tristemente da antiga firmeza escultural e cai, como os frutos caem no fim do outono...
Em breve, há de apodrecer no campo, alimento dos vermes famintos, húmus fecundos da terra, como o fruto que o outono deixa, repasto das novas primaveras, vorazes, egoístas...
É quase a história comum de todos os frutos.
Raul Pompéia
O HINO AURIVERDE
I
Era pelas últimas horas de uma tarde admirável.
A estrada torcia-se como uma serpente enorme, recolhendo-se cuidadosa às sombras vertidas pelo chão juntamente com as folhas secas escapadas aos fartos penachos do arvoredo.
O sol passava por cima da floresta, vergastando com chibatadas de fogo os grelos tenros da ramaria e os grelos deixavam-se cair exaustos sob o suplício.
Apareceu então na estrada uma espécie de mendigo. Seguia lento, cabeça inclinada; amparava-se a um pau mal desgalhado e trazia na mão um pedaço de corda. De vez em quando o sol furava os ramos e jogava-lhe à nuca um punhado de fogo.
II
O mendigo não sentia as garotadas do sol. Ia refletindo, remordendo meias palavras, nessa reflexão difícil de um espírito obscuro e selvagem. Pensava naquela infâmia de pele preta, que lhe haviam colado à carne; naquela robustez maldita, que parecia querer eternizar-lhe o suplício do cativeiro; recordava-se das chicotadas do cafezal, daquele trabalho cruel que mal rendia-lhe a farinha abjeta da ração... E que tempo havia!... Dantes, ele tinha o cabelo preto e a pele lisa; agora os cabelos estavam como paina, brancos, brancos, e a pele riscada de rugas... Só ficaralhe dos primeiros anos o pulso rijo para o eito e a canela forte para as pernadas. O tormento da força.
III
De súbito, no meio dos sussurros indistintos do mato, feitos de chilros de pássaros e de marulho de folhas, ouviu-se um acorde que não era o canto das folhas, nem a conversa dos passarinhos.
O mendigo preto parou. Pôs-se a ouvir aquela música melancólica e agradável, que entrava religiosamente na mata, como a nota de um órgão.
A povoação estava perto. A música era um realejo que se tocava.
- Aqui está bom, disse o velho escravo.
E preparou com a corda um laço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.