Por Camilo Castelo Branco (1862)
O Comandante aceitou o dinheiro, e o desembargador saiu de bordo como espantado da sinistra condição do moço.
— Onde é Monchique? — perguntou Simão a Mariana.
— É acolá, senhor Simão — respondeu. indicando-lhe o mosteiro, que se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaia.
Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um vulto.
Era Teresa.
Na véspera recebera ela o adeus de Simão, e respondera enviando-lhe a trança dos seus cabelos.
Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou à grade do coro, onde se foi amparada à sua criada, Parte das horas da noite passouas sentada ao pé do santuário de sua tia, que toda a noite orou, Algumas vezes pediu que a levassem à janela que se abria para o mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo por seu pé às celas das senhoras entrevadas para lhes dar o beijo da despedida.
Todas cuidavam em reanimá-la, e Teresa sorria, sem responder aos piedosos artifícios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Teresa leu uma a uma a cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego enterneciam-na a copiosas lágrimas. Eram hinos à felicidade prevista: eram tudo que mais formoso pode dar o coração humano quando a poesia da paixão dá cor ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes, Então lhe acudiam vivas reminiscências daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces tristezas, esperanças a desvaneceram saudades, os mudos colóquios com a irmã querida de Simão, o céu aromático que se lhe alargava à inspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, enfim, que lembra a desgraçados.
Emaçou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos de flores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janela ao quarto dela.
As pétalas das flores soltas quase todas se desfizeram, e Teresa, contemplando-as, disse: — "Como a minha vida..." — e chorou, beijando os cálices desfolhados das primeiras que recebeu.
Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito delas, que logo veremos cumprida.
Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado sobre uma cadeira. Erguendo-se, quase tirada pela violência, aceitou uma xícara de caldo, e murmurou com um sorriso: — "Para a viagem..." -
As nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante, e, sentando-se em ânsias mortais, nunca mais desfitou os olhos da nau, que já estava verga alta, esperando a leva dos degredados.
Quando viu, a dois a dois, entrarem, amarrados, no tombadilho, os condenados, Teresa teve um breve acidente, em que a já frouxa claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos conclusas pareciam querer aferrar a luz fugitiva.
Foi então que Simão Botelho a viu.
E ao mesmo tempo atracou à nau um bote em que vinha a pobre de Viseu, chamando Simão. Foi ele ao portaló, e, estendendo o braço à mendiga, recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu ele que a primeira não era sua, pela lisura do papel, mas não a abriu.
Ouviu-se a voz de levar âncora e largar amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.
Viu agitar-se um lenço, e ele respondeu com o seu àquele aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; mas não era de Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da claustra ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.
— É Teresa? — perguntou Simão a Mariana.
— É, senhor, é ela — disse num afogado gemido a generosa criatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento daquela por quem se perdera.
De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e entreviu Simão um movimento impetuoso de alguns braços e o desaparecimento de Teresa e do vulto de Constança, que ele divisara mais tarde.
A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra, e o súbito encapelamento das ondas causara a suspensão da viagem anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia com o piloto-mor, que mandava lançar ferro até novas ordens. Mais tarde adiou-se a saída para o dia seguinte.
E, no entanto, 5imáo Botelho, como o cadáver embalsamado, cujos olhos artificiais rebrilham cravados e imotos num ponto, lá tinha os seus imersos na interior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram até que o derradeiro raio de Sol se apagou nas grades do mosteiro.
Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lágrimas. o desterrado, que contemplava as primeiras estrelas, iminentes ao mirante,
— Procura-a no céu? — disse o nauta.
— Se a procuro no céu... — repetiu maquinalmente Simão.
— Sim!... No céu deve ela estar.
— Quem, senhor?
— Teresa.
— Teresa...! Morreu?!
— Morreu, além, no mirante, donde ela estava acenando.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.