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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Longe, a sereia de um paquete reboava soturna. Ficou a encher de somas as folhas de papel rabiscadas até que ouviu a porta da rua guinchar e a voz do Fábio, a despedir-se. Pouco depois Dona Júlia bateu no vidro, chamando-o.

— Já vou. — Enfiou apressadamente as calças e, em mangas de camisa, arrastando chinelas, saiu do quarto, dizendo logo, com ódio:

— Veio falar de mim, essa besta...

— Não, não falou.

— Ora! não falou... Eu ouvi tudo, mamãe.

— Ficou aborrecido porque mandaste Mamede.

— Sim... Queria que eu fosse para pregar-me um dos tais sermões. A senhora fez bem em não aceitar o dinheiro. Que o guarde, não precisamos de esmolas. Pensava, sem dúvida, que íamos morrer à mingua. A mim é que ele não engana. — E foi caminhando para a sala de jantar.

O dia estava enevoado e triste; o ar frio picava. Paulo, a olhar o quintalejo, esfregava os braços voluptuosamente e, quando Felícia apareceu com o café, sentou-se trincando o pão com apetite. Cantavam na vizinhança e a voz, fresca e aguda, vibrava em trilos alegres.

— Onde estão os jornais?

— Em cima da mesa, — disse Felícia do corredor.

Estavam debaixo de umas velhas camisas que Dona Júlia remendava. Sentou-se na cadeira de balanço e, de pernas cruzadas, pôs-se a ler as folhas. As camaxirras chilreavam no jardim vizinho e o sol, rompendo as nuvens escuras, brilhou um instante, mas foi esmaecendo e, de novo, o dia entristeceu e esfriou. Com os olhos nas colunas dos jornais Paulo não via mais que manchas — o seu espírito estava longe. Por vezes demorava um instante nos períodos — aqui, num telegrama; ali, numa local: mas outra nuvem passava e lá volvia ele aos castelos do sonho, à fortuna, ao amor — ganhando à banca, torcendo-se de volúpia, vendo pilhas de fichas ou os olhos negros, irrequietos de Ritinha. Atirou longe os jornais e levantou-se bocejando alto, a estrincar os dedos.

— Que dia fúnebre!

— É volta de tempo. Amanhã é lua nova — explicou a velha limpando os óculos.

— Está frio. — E, lentamente, esfregando as mãos, foi caminhando para o quintal. — Onde está a toalha, Felícia? — Na corda, nhonhô.

Dona Júlia sentou-se junto à janela e, tomando as velhas camisas, pôs-se a examiná-las vagarosamente. E ali ficou, numa curta felicidade, esquecida da sua mágoa, como se nada houvesse perturbado a tranqüilidade de sua vida modesta e mansa.

Esses instantes eram rápidos e raros. Às vezes, cosendo, distraída, entoava baixinho modinhas tristes, mas voltando-lhe a lembrança da filha, calava-se envergonhada como se ali houvesse um morto ou se o dia fosse de respeito, como os da Semana Santa. A alegria passava fugitivamente por aquele coração ferido, como a sombra duma ave rasteja n'água de uma lagoa triste. Quando o filho reapareceu já a encontrou na tortura.

— Viste na Gazeta o suicídio daquela moça?

— Não, senhora.

— Dezoito anos! — suspirou baixando a cabeça ao peso dum pensamento doloroso. — É duma coisa assim que eu tenho medo. E levantou os olhos que brilhavam úmidos por trás das lentes dos óculos de ferro. — É mesmo, meu filho. Foi uma loucura, mas sabe Deus se, a esta hora, ela não está arrependida por aí. É por isso que eu não durmo.

— Ora, mamãe... Está a senhora a gastar cera com ruim defunto. — Para que falas assim!

Encarou-o repreensiva e já as lágrimas rolavam-lhe dos olhos, grossas e compridas, caindo nas velhas camisas que ela amontoara ao colo, quando Paulo, encolhendo os ombros, resmungou:

— Está bom...

— Deixa! o choro alivia-me.

— Mas mamãe há de passar toda a vida chorando?

— E achas que posso viver alegre?

— Mas isso aborrece.

— Aborrece... Aborrece por quê? Eu não tenho o teu coração. Vivo aqui sozinha e, quem me faz companhia, ainda assim, é ela.

— Violante?

— Então?

— Pois sim...

— Agradece a Deus esse gênio. És indiferente, não te importas. Eu não sou assim. Que hei de fazer? A culpa não é minha.

Estavam os dois conversando quando Felícia entrou na sala, a correr, espantada como se houvesse visto algo de sobrenatural. Paulo encarou-a.

— Que é?

A negra resmungava, com os olhos cravados no corredor da cozinha; pôs-se depois a examinar o vestido, a esfregar os braços; e respirou largamente.

— Que é, Felícia? — perguntou Dona Júlia, descansando os óculos na costura.

— Que coisa, minh'ama! Esta casa não é direita — e meneou com a cabeça lentamente. — Não é direita, não. Já não é a primeira que me acontece.

— Que foi? indagou o estudante.

— É alma, nhonhô. Eu ouço voz: chamam por mim, puxam o meu vestido. Outro dia, eu estava estendendo roupa no quintal, e ouvi um gemido saindo do chão, como de gente enterrada. Fiquei toda arrepiada, com os cabelos em pé, e corri para dentro. Estava batendo meio-dia.

— Tu estás malucando, rapariga — disse Paulo com indiferença.

— Malucando... Eu só queria que vosmecê ouvisse. Esta casa não é direita, — repetiu d'olhos baixos, fazendo com a mão um gesto negativo. — Não é direita, não! Queira Deus que seja maluquice minha; e vagarosamente, receosamente, foi caminhando para a cozinha.

Uma chuva miúda, peneirada, batida de vento, entrava pela janela.

(continua...)

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