Por Coelho Neto (1890)
Era a morte — ela ali estava, debaixo daquela camada de carne que mal a encobria. Teve medo, sentou-se no leito lançando olhares vagos, procurando ouvir rumores, num grande e ansioso desejo de viver. E como que lhe ia faltando o ar, o ambiente refazia-se. Ergueu-se, atafulhou os pés nas chinelas e saiu para a sala.
A luz reanimou-o, respirou largamente, livremente e lançou os olhos às estantes procurando um livro, mas bateram à porta. O coração teve um sobressalto, e, comovido, ergueu-se da cadeira onde se havia deixado cair e, pé ante pé, sutilmente, encaminhou-se para o parto; deitou-se e cobriu-se. Bateram de novo, falou então:
— Entre.
Era Carlota. Não o vendo na sala, a menina deteve-se perguntando: Se podia entrar.
— Entre, miss. Estou de cama.
— Está doente?! — exclamou ela penalizada.
— Bem doente.
— Que tem?
— Não sei Meu companheiro foi chamar um médico. Entre.
— Ela atreveu-se, vagarosamente, como em receio: vendo-o, porém, deitado, acreditou avançando então até o leito impressionada. Estava mais linda que nunca. Os cabelos brilhavam-lhe como se neles houvesse um pouco do sol que andava lá fora dourando as árvores; os olhos pareciam mais azuis, os lábios tinham mais cor e evolava-se-lhe um tal perfume do corpo que, mesmo à distância como ficara, lá chegava ao enfermo beneficamente o delicioso aroma. Olharam-se algum tempo. Ele esteve para falar-lhe do seu amor, propondo desposá-la, mas o ar sereno, frio, indiferente da jovem desconcertou-o.
— Tem febre?
— Muita, miss.
— Mas o médico vem, não é?
— Vem. Meu companheiro foi buscá-lo.
— Então... sorriu e disse, com um leve acento: Não há perigo. Se o senhor fosse estrangeiro, isso sim! Mas brasileiro, não há perigo. Com licença. — Pois não, miss.
Saiu para a sala. Anselmo ouvia desvanecidamente o roçar leve da vassoura e o farfalho dos papéis varridos, depois as cadeiras arrastadas e as surdas pancadas do espanador nos móveis, até que ela apareceu de novo à porta do quarto:
— Dá licença? — Pois não.
Tomou a bacia, despejou-a no balde, segurou-o pela alça e, com o jarro na outra mão, saiu em passos leves. Outra vez só, ele empenhou-se em uma luta íntima dialogando com um outro eu prudente e covarde que lhe abrandava e arrefecia os estos passionais.
"Ora! Que tem? Falo, digo-lhe a verdade: não pode zangar-se. Que mal há nisso? Se fosse uma proposta infame, mas... dizer-lhe que a amo muito e muito, consultá-la antes de pedi-la ao pai?" "E se ela revoltar-se?" "Revoltar-se por quê?" "Mas admitamos que se revolte..." "Não há razão para isso..." "Ora, não há razão... Não é em um quarto de um leito, que um homem faz propostas de casamento a uma menina... "Mas se eu estou doente..." "Espere. Não é decente. Não é correto..." "Correto... pois falo...! Que pode acontecer? Se ela tomar a mal e queixar-se ao pai,
digo tudo, caso e está acabado..." "Pois sim..." "Pois sim mesmo..." Mas o balde tilintou no corredor.
— Dá licença?
— Pois não, miss.
E Carlota entrou, pôs em ordem o lavatório, substituiu a toalha e, enquanto, de costas, fazia, às pressas, a cama de Ruy Vaz, Anselmo, com os olhos nas tranças louras, dialogava com o outro eu tímido e vitorioso:
"Então? Por que não lhe falas agora? Fala!..." "Falo mesmo..." Mas não ousou sair do silêncio e foi Carlota quem o quebrou:
— E o senhor não come?
— Não sei ainda, miss; se o médico permitir..
— Pois sim. Nós podemos arranjar alguma coisa, não será bem feita, mas como o senhor não pode sair... — Muito obrigado.
A campainha tiniu e soaram passos fortes no corredor da entrada.
— Parece que está aí o seu companheiro com o doutor. Bem, então, se precisar alguma coisa..
— Sim, miss.
— Até logo... Estimo as suas melhoras.
— Miss... sussurrou o enfermo, mas era tarde. Ruy Vaz bradava do corredor:
— Então! Como vamos? Oh! Miss...
— Diabo! Justamente quando eu ia dizer-lhe tudo!
O Teixeira, médico e filósofo, era um belo homem, moreno e atarracado, de espessos bigodes negros, olhos vivos, gestos largos. Entrou descerimoniosamente, pisando forte e Anselmo, que mal o conhecia, sentou-se para recebê-lo.
— À vontade. Então que há?
Ruy Vaz apareceu com uma cadeira, mas o médico já se havia sentado à beira da cama, enquanto Anselmo arregaçava lentamente a manga para mostrar-lhe o braço. Ele curvou-se e examinou com cuidado, tocando o cordão que cedia molemente ao tato.
— Dói?
— Muito, doutor!
— É a primeira vez que tem isto?
— Não senhor; tive em criança, mas não assim com esta violência.
— Neste mesmo braço?
— Sim senhor.
— Teve febre?
— Tive.
Tomou o pulso e ficou um instante atento; depois, voltando-se para Ruy Vaz, que se conservava de pé junto ao leito:
— Tem ainda alguma, mas pouca. Isto não tem valor. Vou fazer uma receita.
Levantou-se e, enquanto lavava as mãos, perguntou: Também é poeta?
— Não, senhor: estudo Direito.
— Qual estuda! — contrariou Ruy Vaz. Abandonou a academia no terceiro ano para fazer literatura. É mais um para a fome.
O médico meneou com a cabeça e esticou o beiço desanimadamente:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.