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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Desenvolvido à força e habilitado no torvelinho moral do internato, aproveitara os dois meses de feriado para espreitar a animação da vida exterior. A sala, a sociedade, os negócios da praça pública, que na infância são como contatos de nevoeiros resvalando pela imaginação, que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo em que preferimos da soirée os bens-bocados, das toilettes os laços de cores rútilas, ignorando que há talvez na vida alguma coisa mais açúcar que o açúcar, e que o toque macio pode uma vez levar vantagem à coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociais modestamente o garbo de Faetonte nos carros de praça ou a bravura rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições vão mais alto e que há comendadores; o movimento do grande mundo não me aparecia mais como um teatro de sombras. Comecei a penetrar a realidade exterior como palpava a verdade da existência no colégio. Desesperava-me então ver-me duplamente algemado à contingência de ser irremissivelmente pequeno ainda e colegial. Colegial, quase calceta! marcado com um número, escravo dos limites da casa e do despotismo da administração.

Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformizava-se de branco o colégio como para as festas de ginástica, com os gorros de cadarço e saiamos a dois, a quatro de fundo, tambores, clarins à frente.

No ano anterior, os passeios tinham sido insignificantes, marchas alegres pelo arrabalde. Vinham ao peitoril as mocinhas, e nós todos, anchos de militarismo, despendíamos elegância prodigamente. Eram melhores as excursões à montanha. Subíamos aos Dois irmãos, caminho do Corcovado, marchávamos até à caixad’água. Ai debandávamos na ameníssima chapada.

Os passeios eram depois do jantar. À noitinha voltávamos, dando balanço às notas de sensações, um deslumbramento verde de floresta, um retalho de afogueado crepúsculo, um canto de cidade ao longe diluído em fumaça cor de pérola, ou o olhar de uma dama e o sorriso de outra, projetis inofensivos de namoro que na hipótese de andar a gente em forma têm o defeito da incerteza, se vêm expressamente a nós, se ao vizinho, e a nós apenas por uma casualidade de ricochete — o ciúme eterno dos cerra-filas que a Praia Vermelha conhece.

Os nossos passeios foram mais consideráveis.

Primeiro ao Corcovado, assalto ao gigante, hoje domado pela vulgaridade da linha férrea.

Às 2 horas da noite, troaram os tambores como em quartel assaltado. Os rapazes, que mal havíamos dormido, na excitação das vésperas, precipitaram-se dos dormitórios. Às 3 e pouco estávamos na serra.

Aristarco rompia a marcha, valente como um mancebo, animando a desfilada como Napoleão nos Alpes.

Passeio noturno de alegria sem nome. As árvores beiravam a estrada de muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu límpido. No caminho, trevas de túnel e agitação confusa das roupas, malhada a esmo de placas de luar brando — reptil imenso de cinza e leite em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na dormência de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão! Subíamos. Pelas abertas do arvoredo devassávamos abismos; ao fundo, a iluminação pública por enfiadas, como rosários de ouro sobre veludo negro.

A boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam sucessivamente na ordem da forma. Felizes alguns, conseguiram uma gota de fino Porto, mais quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch, avivando a alegria como um brinde de fogo.

O espaço aparecia mais claro sobre a renda das ramas; as últimas estrelas por entre as folhas emurcheciam como jasmins, e fechavam-se. Aristarco deu ordens à banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado triunfal rasgou o silêncio das montanhas espavorindo a noite; o bombo de Rômulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o espiava metendo o bico à beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para genro, aturdindo os ecos com um repente brutal de alvorada.

Ao passo que nos elevávamos, elevava-se igualmente o dia nos ares. Apostava-se a ver quem primeiro cansava. Cada avanço da luz no espaço era como um excitante novo para a jornada, suavizando a doçura do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a música parava, ouvíamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as águas do Carioca, ciciando queixas poéticas de náiade emparedada.

Avistávamos por hiatos de perspectiva a baia, o Oceano vastamente desdobrado em chamas, extenso cataclismo de lava.

No planalto do Chapéu de Sol paramos. O diretor convencionou que, ao sinal de debandar, assaltaríamos na carreira o espigão de granito empinado à extrema do monte. A rapaziada aclamou a proposta e, com um alarido bárbaro de peleja, arrojamo-nos à conquista da altura.

(continua...)

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