Por Camilo Castelo Branco (1862)
Vou. Abomino a pátria, abomino a minha família; todo este solo está aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha língua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a liberdade com a opulência; nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu amor, Teresa!
Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui. Apague-se a luz dos meus olhos; mas a luz do céu, quero-a! Quero ver o céu no meu último olhar!
Não me peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade cativa dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses. A voz única que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcástica boa-nova de uma graça real, que me comuta o morrer instantâneo da forca pelas agonias de dez anos de cárcere.
Salva-te, se podes, Teresa. Renuncia ao prestígio dum grande desgraçado. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz, vive para a felicidade desse dia. E, se não, morre, Teresa, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as fibras laceradas pela dor, é o esquecimento que salva das injúrias a memória dos padecentes".
As palavras únicas de Teresa, em resposta àquela carta, significativa da turbação do infeliz, foram estas: "Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino... Perdi-te... Bem sabes que sorte eu queria dar-te... e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, viva; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-á o meu espírito... Estou tranqüila. Vejo a aurora da paz... Adeus, até ao céu, Simão".
Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão Botelho não respondia às perguntas de Mariana, Di-lo-íeis arroubado nas voluptuosas angústias do seu próprio aniquilamento. A criatura posta por Deus ao lado daqueles dezoito anos tão atribulados chorava; mas as lágrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez sossegada para ímpetos de aflição, que afinal o extenuavam..
Decorreram seis meses ainda.
E Teresa vivia, dizendo às suas consternadas companheiras que sabia ao certo o dia do seu trespasse.
Duas primaveras via Simão Botelho pelas grades do seu cárcere. A terceira já enflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.
Era em março de 1807.
No dia 10 desse mês, recebeu o condenado intimação para sair na primeira embarcação que levava âncora do Douro para a Índia. Nesse tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa os que tinham igual destino.
Nenhum estorvo impedia o embarque de Mariana, que se apresentou ao corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu amo.
— E a passagem vale-a bem! — disse o galhofeiro magistrado.
Simão assistiu ao encaixotar da sua bagagem, numa quietação terrível, como se ignorasse o seu destino.
Quis muitas vezes escrever a derradeira carta à moribunda Teresa, e nem sinais de lágrimas podia já enviar-lhe no papel.
— Que trevas, meu Deus! — exclamava ele, e arrancava a mãos cheias os cabelos. — Dai-me lágrimas, Senhor! Deixai-me chorar, ou matai-me, que este sofrimento e insuportável!
Mariana contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os não menos medonhos da letargia.
— E Teresa! — bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo. — E aquela infeliz menina que eu matei! Não hei de vê-la mais, nunca mais! Ninguém me levará ao degredo a noticia de sua morte! E, quando a eu chamar para que me veja morrer digno dela, quem te dirá que eu morri, ó mártir?!
A 17 de março de 1807, saiu dos cárceres da Relação Simão Antônio Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com setenta e cinco companheiros. O filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiça, não ia amarrado com cordas ao braço de algum companheiro. Desceu da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Mariana, que vigiava os caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante que distinguisse o condenado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o à sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueira. pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
— É demente o senhor Simão?! — disse o desembargador.
— Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi; quero agora ver a que extremo de infortúnio ela pode levar os seus amantes. A caridade só me não humilha quando parte do coração e não do dever. Não conheço a pessoa que me remeteu esse dinheiro.
— É sua mãe — tornou Mosqueira.
— Não tenho mãe. Quer vossa excelência remeter-lhe esta esmola rejeitada?
— Não, senhor.
— Então, senhor comandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto ao rio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.