Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Um dos seus propósitos mais altos era melhorar a navegação interior do Brasil. O seu interesse era pela bacia do São Francisco. Notava Bentes que os seus rios serviam cinco Estados do Brasil, interessando alguns mais; e, entretanto não tinham merecido até ali a atenção dos poderes públicos. Notava ainda que nessa portentosa bacia vivia uma população enérgica, ativa, corajosa e o governo tinha o dever de auxiliá-la. O seu primeiro cuidado, se fosse governo, seria torná-lo navegável da foz à nascente, destruindo a dinamites e outros explosivos a cachoeira de Paulo Afonso e outros obstáculos que lhe impediam o livre aproveitamento pelos barcos.

O outro seu alto propósito tendia a homenagear a mulher brasileira, esse exemplo extraordinário de mãe, dizia o manifesto; e havia de fazer, quando chefe do executivo, distribuição gratuita de brinquedos às crianças, desde que tivessem mães — continuava a dizer o manifesto.

Não eram idéias comuns as que aventou e nem tão pouco inviáveis; o que havia nelas era um altruísmo exagerado que muito desgostou os seus adeptos. Fuas dissera mesmo que era o seu programa, um programa de ideólogo; se não fora a experiência que já tinha a opinião conservadora de sua capacidade de administrador, as idéias do general deviam pô-la de sobreaviso.

Afirmou com uma coragem de inovador que nunca as ações consultariam a economia política e muito menos as finanças; que o país era soberbamente rico e não devia obedecer a essas tiranias espirituais criadas nos caducos e pobres países da Europa.

Fuas ainda disse no seu memorável artigo que essa opinião era de sábio, e, para ela, deviam voltar a sua atenção os eruditos rotineiros, adstritos às coisas misantrópicas do Adam Smith da Wealth of Nations. Citou vários exemplos negando que a riqueza fosse o trabalho acumulado.

A esfuziante profundeza do manifesto foi recebida pelo país inteiro boquiaberto e Numa, na Câmara, defendeu-o dos ataques da oposição ignara. A sua defesa foi lógica e consistiu unicamente em pedir que esperassem a execução para se obter um critério seguro da certeza das proposições avançadas por Bentes.

D. Edgarda, mulher de Numa, não andou muito contente uns dias; ela os passou recolhida à sua biblioteca a ler e a pensar.

Os livros estavam fora dos seus lugares nas estantes; viviam pelas mesas, pelo chão, abertos, com arcas à vista; e um tal aspecto era mais o da biblioteca de um sábio em desesperada polêmica que o da de uma senhora que faz plácidas leituras.

Essa preocupação de estudo e exame não foi a de Inácio Costa. O ardente republicano, fundador da República, que foi ao lado de Benjamim Constant, não sentiu absolutamente na plataforma nem grandes coisas nem motivos de dúvida. Aquilo era uma simples cerimônia e não precisava mesmo Bentes cumpri-la, porque bastava inspirar-se nos grandes antecedentes históricos de Benjamim, Tiradentes e Floriano, para fazer um bom governo.

— Bogoloff — dizia ele, certa vez ao russo, no seu gabinete — os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos. Os metafísicos não querem concordar e têm perturbado a marcha ascendente da humanidade, a completa passagem do período metafísico para o científico industrial. Essas preocupações dos legistas retrógrados não são mais da nossa época. A grande síntese social que Comte estabeleceu, completando Condorcet por De Maistre, demonstra perfeitamente isso. Bentes tem razão em fugir à pedantocracia universitária...

Bastam os exemplos! Floriano...

— Que fez Floriano?

— Não sabe? Foi o maior estadista que tivemos.

— Quais são as suas obras?

— Manteve a forma republicana federativa com uma energia

verdadeiramente republicana. Era um estadista moderno... Quer saber de um ato dele?

— Quero.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5152535455...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →