Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Cassi Jones ia atravessando aquele bairro singular e escuro, quando, do fundo de uma tasca, lhe gritaram:

— Olá! Olá! "Seu" Cassi! Ó "Seu" Cassi!

Insensivelmente, ele parou, para verificar quem o chamava. De dentro da taverna, com passo apressado, veio ao seu encontro uma negra suja, carapinha desgrenhada, com um caco de pente atravessado no alto da cabeça, calçando umas remendadas chinelas de tapete. Estava meio embriagada. Cassi espantou-se com aquele conhecimento; fazendo um ar de contrariedade, perguntou amuado:

— Que é que você quer?

A negra, bamboleando, pôs as mãos nas cadeiras e fez com olhar de desafio:

— Então, você não me conhece mais, "seu canaia"? Então você não "si" lembra da Inês, aquela crioulinha que sua mãe criou e você...

Lembrou-se, então, Cassi, de quem se tratava. Era a sua primeira vítima, que sua mãe, sem nenhuma consideração, tinha expulsado de casa em adiantado estado de gravidez. Reconhecendo-a e se lembrando disso, Cassi quis fugir. A rapariga pegou-o pelo braço:

— Não fuja, não, "seu" patife! Você tem que "ouvi" uma "pouca" mas de "sustança".

A esse tempo, já os freqüentadores habituais do lugar tinham acorrido das tascas e hospedarias e formavam roda, em torno dos dois. Havia homens e mulheres, que perguntavam:

— O que há, Inês?

— O que te fez esse moço?

Cassi estava atarantado no meio daquelas caras antipáticas de sujeitos afeitos a brigas e assassinatos. Quis falar:

— Eu não conheço essa mulher. Juro...

— "Muié", não! — fez a tal Inês, gingando. — Quando você "mi" fazia "festa", "mi" beijava e "mi" abraçava, eu não era "muié", era outra coisa, seu "cosa" ruim!

Um negro esguio, de olhar afoito, com um ar decidido de capoeira, interveio:

— Mas, Inês, quem é afinal esse moço?

— É o "home qui mi" fez mal; que "mi" desonrou, "mi pois" nesta "disgraça".

— Eu! — exclamou Cassi.

— Sim! Você "memo", "seu" caradura! "Mi alembro" bem... Foi até no quarto de sua mãe... Estava arrumando a casa.

Uma outra mulher, mas esta branca, com uns lindos cabelos castan’os, em que se viam lêndeas, comentou:

— É sempre assim. Esses "nhonhôs gostosos" desgraçam a gente, deixam a gente com o filho e vão-se. A mulher que se fomente... Malvados!

Cassi ouvia tudo isso sem saber que alvitre tornar. Estava amarelo e olhava, por baixo das pálpebras, todas as faces daquele ajuntamento. Esperava a policia, um socorro qualquer. A preta continuava:

— Você sabe onde "tá" teu "fio"? "Tá" na detenção, fique você sabendo, "Si" meteu com ladrão, é "pivete" e foi "pra chac'ra". Eis aí que você fez, "seu marvado", "home mardiçoado". Pior do que você só aquela galinha-d'angola de "tua" mãe, "seu" sem-vergonha!

Cassi fez um movimento de repulsa e que a rapariga não perdeu.

— "Oie" — disse ela, para os circunstantes — ; ele diz que não é o tal. Agora "memo se acusou-se", quando chamei a ratazana da mãe dele de galinha-d'angola...

É uma "marvada", essa mãe dele — uma "véia" cheia de "imposão" de inglês. Inglês, que inglês....

Soltou uma inconveniência, acompanhada de um gesto despudorado, provocando uma gargalhada gerai. Cassi continuava mudo, transido de medo; e a pobre desclassificada emendava:

— "Tu" é "mao" mas tua mãe é pior. Quando ela descobriu "qui" eu "tava" com "fio" na barriga, "mi pois" pela porta afora, sem pena, sem dó "di" eu não "tê pronde í". E o "fio" era neto dela e ela "mi" tinha criado... Vim da roça... Ah! Meu Deus! Se não fosse uma amiga, tinha posto o "fio" fora, na rua, que era serviço... Deus perdoe a "tua" mãe o que "mi" fez "í" a meu "fio", "fio" deste "qui taí", também, Deus lhe perdoe!

E a pobre negra abaixou-se para apanhar a barra da saia enlameada, a fim de enxugar as lágrimas com que chorava o seu triste destino, talvez mais que o dela, o do seu miserável filho, que, antes dos dez anos, já travara conhecimento com a Casa de Detenção...

Graças à intervenção do dono da tasca, que tinha com o guarda de ronda o compromisso de manter a ordem no "reduto", o ajuntamento se desfez, e Cassi pôde continuar seu caminho, Por despedida, porém, ainda levou uma surriada das mulheres, que o descompunham em baixo calão, enquanto Inês imprecava:

— "Marvado"! Desgraçado! Caradura! Hás de "mi pagá", "seu canaia"!

Logo que se viu livre do perigo, Cassi respirou, compôs a fisionomia, apalpou o dinheiro na algibeira e fez de si para si:

— Acontece cada uma! Para que havia de dar esta negra... Felizmente, foi em lugar que ninguém me conhece; se fosse em outro qualquer — que escândalo! Os jornais noticiariam e... Não passo mais por ali e ela que fosse para o diabo! ... Fico com o dinheiro em casa.

Nenhum pensamento lhe atravessou a cabeça, considerando que um seu filho, o primeiro, já conhecia a detenção...

CAPÍTULO X

Clara dos Anjos, meio debruçada na janela do seu quarto, olhava as árvores imotas, mergulhadas na sombra da noite, e contemplava o céu profundamente estrelado. Esperava.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5152535455...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →