Por Coelho Neto (1890)
Logo que o romancista saiu, Anselmo que, nesse tempo, andava extasiadamente pelas sagas, todo enlevado no amor ideal de Carlota, pôs-se a compor um poema como o de Tristão. E, para que nada lhe perturbasse o doce sonho, nem a visão, nem o ruído, voltou-se para a parede fugindo ao real para isolar-se no imaginário. Estava ali como o valente guerreiro depois da luta tremenda com Morolt. A dor que sentia não era a de um abcesso que se ia formando, senão a de uma ferida ganha no estupendo duelo em que se empenhara com o monstro, mas, dentro em pouco, ela surgiria com o bálsamo paregórico, ela, a divina Isolda, Isolda cuja voz abrandava a cólera das vagas, Isolda que fizera, com temeridade, com que ele aparelhasse uma nau e saísse ao mar afrontando tormentas e a desigual peleja com o gigante que era o terror e o flagelo da Irlanda.
Era tão suave aquele idílio espiritual que operava como um sedativo. As dores iam cedendo e ele sentia um bem estar geral de corpo e de alma enquanto devaneava, fugindo à realidade. Mas o romancista reapareceu, esfregando a cabeça desesperadamente:
— Estás melhor?
— Ora! Pensas então que isto vai assim? Olha o cordão linfático; voltou-se e, arregaçando a manga da camisa, mostrou o braço nu, empolado e rubro.
— Ó diabo! — exclamou Ruy Vaz. Isso até parece aneurisma. E deu-se mais pressa em vestir-se, impressionado com o que vira.
— Falaste lá dentro?
— A pequena saiu com o pai. Está lá a velha, a Babel, confundindo línguas e cerzindo meias. Não falei, porque estou certo de que pioravas se aquela nixe viesse fazer-te companhia. Bem, agora fica tranqüilo um instante enquanto vou, num pulo, À Rua da Glória ver o Teixeira. Acendeu um cigarro e, da porta quarto, perguntou à meia voz: Tens dinheiro?
— Nada... E tu?
— Ora! Isso é que é o diabo. Tu não podes ficar sem remédios e inanido. Como há de ser? Também para perder o dia na cidade à caça de uns cinco ou seis mil réis magros e tu aqui abandonado não me parece razoável.
— Olha, leva o meu Musset ao Cunha.
— Quanto pode dar o Musset?
— Não sei. Se queres leva também Os Miseráveis.
— Acho melhor. E que queres da cidade?
— Cigarros.
— Não, para o estômago.
— Sei lá! Não tenho apetite. Traze café.
— Bem, mas o essencial é o médico. Até já.
Ruy Vaz foi à estante de Anselmo, tomou os dois poetas, fez um embrulho e partiu.
Só, o enfermo tornou ao sonho, mas não com a mesma tranqüilidade nem com o mesmo gozo, porque outra visão surgia, por vezes, fazendo desaparecer a meiga Isolda: era o casal unido dos velhinhos: ele morto, ela longe!... Ah! Se eles o vissem naquela extremidade, em tamanho abandono, sem ter à cabeceira uma pessoa amiga que dele cuidasse, que lhe refizesse o leito, que lhe chegasse aos lábios escaldados o copo de água fresca, que pensasse na hora dos remédios, que lhe preparasse a dieta! Entanto a mãe, sempre que praticava a caridade, dizia: "Deixem-me dar aos que precisam... Tenho um filho, não sei que há de ser dele neste mundo... Assim, se ele, algum dia, tiver fome ou frio, Deus há de deparar-lhe alguém que lhe faça o mesmo que agora faço"... E ele ali estava sozinho, talvez perto da morte, sem uma pessoa que lhe pusesse na mão a vela que ilumina a sombra derradeira, sem uma pessoa que lhe ouvisse a última palavra, só, numa casa estranha, entre gente estranha.
E julgava-se vítima da injustiça dos homens. Sentia que não era um nulo, tinha grande confiança no seu espírito e como que pasmava de que o não julgassem como merecia. As idéias fervilhavam-lhe no cérebro. Ali mesmo, sob aquela formidável pressão moral, moral, sentia-se como um gênio e via as suas "criações" desfilarem aereamente, vindo de todos os lados, baixando do teto, surgindo dos cantos, saltando das paredes e ouvia um sussurro de vozes à distância, mas tudo se desfazia, sumia-se. Tornava ao real, com a sensação de alívio de quem atravessa um túnel e, depois da asfixia subterrânea, ganha, de novo, o pleno ar, a luz dos campos.
Voltou-se no leito doridamente. Um relógio soou. Que horas seriam? A sede começava a abrasá-lo. Passando a língua pelos lábios sentiu-os secos, gretados. Ergueu-se com sacrifício, o braço encolhido, encheu o copo e bebeu avidamente, conservando-se um de pé, defronte do espelho, a mirar-se.
Achou-se desfigurado, muito pálido, os olhos cavados, o cabelo crescido e hirsuto; apalpou as pomas das faces passou a mão pela fronte derreando o cabelo e, lentamente, tornou ao leito, mas uma sinistra idéia no espírito.
Estirando-se, passou e repassou a mão pelos ossos das pernas, moveu a rótula, abarcou as coxas, tomou entre dois dedos o ápice dos ilíacos, depois, de uma a uma, as costelas, tocou os ossos da face e das têmporas, circulou as órbitas afundando o indicador, por fim pôs-se a arrepelar o couro cabeludo como se quisesse sentir todo o esqueleto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.