Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Um belo cão negro enfeitado de bastos pêlos reluzentes, orgulhoso em extremo, espécie de cão fidalgo, entrou pelo cortiço, com a cauda enroscada em penacho e as orelhas erguidas. Logo depois voltou, atirando ao ar as grandes patas, saltando alegre. De vez em quando, sacudia o focinho e via-se alguma coisa a balançar pendente. A pouca distância, o dono do cão, o filho do sr. Visconde, pequenote de calças curtas ainda, e já pelintra, soltava largas risadas, batendo com o pezinho bem calçado na soleira de mármore do palacete da família. Com um chicotinho fino fustigava o ar e ria-se... ria-se...

IV

Emília vinha da bica da esquina, arrastando o regador cheio a transbordar.

Aquele cachorro!...

Ao chegar à porta da estalagem viu o cão.

O animal galopava para o palacete e levava Milina nos dentes.

Emília fora de si atirou o regador, que tombou na sarjeta e voou sobre o animal...

V

O filho do Visconde tomou-lhe a frente continuando a rir-se da brincadeira do seu Turco.

- Mau! menino mau! gritou Emília, avançando para o pequeno.

O chicotinho zuniu três vezes...

Emília recuou, e levou as mãozinhas aos seus olhos tão belos e tão bons, soltando um longo:

-Ai!

Foi pungente.

Emília estava cega.

Raul Pompéia

NIENTE

I

Ali num recanto esquecido, Elvira plantou, um dia, um galhozinho de rosa. O arbusto brotou viçoso e, bafejado pelo calor, enfeitou-se de folhas, engrinaldou-se de botões.

Elvira, cada manhã, cada tarde, visitava a plantinha. A roseira recebia o primeiro raio do sol e o primeiro sorriso de Elvira. À noutinha, a roseira tinha visto o derradeiro fulgor do sol, quando Elvira se vinha despedir dela, amparando com os dedos delicados um ramo que se inclinava demasiado, afugentando uma formiga de mau agouro.

Tanto afago e tanto sol era para fazer esperar uma florescência esplêndida.

Elvira esperava.

II

A primeira rosa já tinha dono.

Seria dele... Por que não?... Quem colhera o desabrochar do seu coração?... E Elvira estava convencida, vaidade de moça talvez, que o seu coraçãozinho valia mais que uma rosa.

III

O dia não estava longe.

As auroras influenciavam naquelas flores!... Os sepalozinhos dos botões como que estalavam, ao hálito da madrugada, e se preparavam para descolar-se.

Havia um então... Parecia-se com um amuo de criança prestes a dissolver-se em risos. Estava: abre... não abre...

Ah! quando abrisse!... Mas Elvira não sabia que alguém vinha mais cedo do que ela espiar o botãozinho.

IV

O sol semeava pela campina mil palhetas de ouro. As folhas de erva iriavam-se com as refrações multicores de infinitas gotazinhas de orvalho, estremecendo ao contato do frescor agradável que atravessava a manhã.

O botão, como a boquinha rubra do menino que se expande numa gargalhada franca e aberta, desabrochou a meio.

Em poucos momentos, o botão devia estar... rosa!

Uma linda mocinha, num alvo desalinho, veio correndo e espiou. Era Elvira.

- Até logo, disse à flor.

V

Quando voltou, a rosa não estava lá!...

Uma borboleta azul esvoaçava, batendo gentilmente no ar, com o pano das asas.

O bichinho cabriolava contente, dando viravoltas a esmo. Elvira estava bem irada...

Correu para a borboleta...

Fora essa malvadinha! Tambóm que não fosse pouco importava. O que Elvira queria era dar expansão ao seu desgosto. Mataria a borboleta... Pôs-se a correr pelo campo, agitando no ar o lenço, perseguindo o bichinho; a borboleta supunha que era graça e brincava, voando aqui e voando ali: borboleteando loucamente... Por fim, voou para cima e fugiu. Elvira mordeu o beiço com um gesto graciosamente estouvado e gritou imperiosamente:

- Borboleta!

A borboleta não voltou.

VI

Um mancebo que andava por perto correu à jovem e perguntou:

- Que queres com a borboleta?

Elvira deu um grito de admiração e, sorrindo, lançou-se aos ombros do moço.

- A rosa era tua! exclamou.

- Ah! pois eu te dou, respondeu o moço mostrando uma flor que trazia oculta.

- Então foste tu...?

- Para dar-te, furtei.

- Mau! tiraste-me o gosto... Pois vou dar-te outra

- Dá-me.

Elvira que enlaçava o pescoço do mancebo encostou-lhe à face os lábios e depôs longamente um ósculo.

O sol brilhava esplêndido e riam-se os prados.

Raul Pompéia

NO MAR

I

Em volta de nós alargava-se um círculo d'água contornado pelo horizonte.

Era o Atlântico.

A noute caíra, uma noute esplêndida. O céu, recamado de cetim azul, cavava-se no alto, profundo e luminoso. Umas estrelas, de luz mortiça apareciam cintilando como cabeças de alfinete de prata e a lua desfigurada e enorme pela refração saía do oriente.

Havia oito dias que estávamos no mar, e cada noute fora para mim um espetáculo incomparável; nenhuma, porém, como a última. A pureza da atmosfera, o sossego das ondas, a tranqüilidade de bordo e o luar casavam-se tanto com o bem-estar de espírito em que me achava que eu me sentia impregnado de romantismo.

Estava sentado na coberta do vapor, sobre um caixão, que tinha (lembro-me ainda) as iniciais C.R. borradas com tinta preta. Levantei-me e me acerquei da amurada.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5152535455...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →