Por Camilo Castelo Branco (1862)
Isto é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Fatos e não teses é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as funções ópticas do aparelho visual.
Ao cabo de dezenove meses de cárcere, Simão Botelho almejava um raio de Sol, uma lufada do ar não coada pelos ferros, o pavimento do céu, que o da abóbada do seu cubículo pesava-lhe o peito.
Ânsia de viver era a sua; não era já ânsia de amar.
Seis meses de sobressaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras do coração; e o coração, para o amor, quer-se forte e tenso, de uma certa rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anseios das esperanças, e com as alegrias. que o enchem e reforçam para os reveses.
Caiu a forca pavorosa aos olhos de Simão; mas os pulsos ficaram em ferros, o pulmão ao ar mortal das cadeias, o espírito entanguido no glacial estupidez dumas paredes salitrosas, e dum pavimento que ressoa os derradeiros passos do último padecente, e dum teto que filtra a morte a gotas de água.
O que é o coração, o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos, o espírito anelante de glórias, ao cabo de dezoito meses de estagnação da vida?
O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pela rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para os quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa; e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério.
Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora de desafogo, como que sentia o patíbulo lascar entre os seus braços, e então convidou o coração da mulher que o perdera a assistir às segundas núpcias da sua vida com a esperança.
Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Ásia, e o coração intumescia-se de fel, o amor afogava-se nele. morte inevitável, quando não há abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão íntima.
Esperança para Simão Botelho, qual?
A Índia, a humilhação, a miséria, a indigência.
E os anelos daquela alma tinham mirado as ambições de um nome. Para a felicidade do amor envidava as forças do talento; mas, além do amor, estava a glória, o renome e a vã imortalidade, que só não é demência nas grandes almas e nos gênios que se sentem reviver nas gerações vindouras.
Mas grinaldas de amor a escorrerem sangue dos espinhos, essas infiltram veneno corrosivo no pensamento, apagam no seio a faísca das nobres afoitezas, apoucam a idéia que abrangera mundos, e paralisam de mortal espasmo os estos do coração.
Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito meses de cárcere, com o patíbulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor da alma.
A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava responder, retraía-se, recriminado pelos ditames da razão.
De além, daquele convento onde outra existência agonizava, gementes queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias nem podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ela, e as do demônio do desespero para ti.
Os dez anos de ferros em que lhe quiseram minorar a pena, eram-lhe mais horrorosos que o patíbulo. E aceitá-los-ia, porventura, se amasse o céu, onde Teresa bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em peçonha? Creio: — antes a masmorra, onde pode ouvir-se o som abafado de uma voz amiga; antes os paroxismos de dez anos sobre as lajes úmidas de uma enxovia, se, na hora extrema, a última faísca da paixão, ao bruxulear para morrer, nos alumia o caminho do céu por onde o anjo do amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do que ficou.
Teresa pedira a Simão Botelho que aceitasse dez anos de cadeia, e esperasse ai a sua redenção por ela.
"Dez anos! — dizia-lhe a enclausurada de Monchique. Em dez anos terá morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te perdoe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vais ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memória de mim, quando voltares".
Como a pobre se iludia nas horas em que as débeis forças de vida se lhe concentravam no coração!
As ânsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que criara novo, já lhe saía em golfadas com a tosse.
Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos três mil seiscentas e cinqüenta vezes corridos sobre as suas longas noites solitárias, nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava de hora a hora.
"Não esperes nada, mártir — escrevia-lhe ele. — A luta com a desgraça é inútil, e eu não posso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não temos nada neste mundo, Caminhemos ao encontro da morte... Há um segredo que só no sepulcro se sabe. Ver-nos-emos?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.