Por Lima Barreto (1922)
Em começo, recebeu alguns de valia; mas, bem depressa, os fariseus e simuladores de talento tomaram conta da sala.
A sua delicadeza e a sua bondade se vira obrigada a receber toda essa chusma de mediocridades que, sem ter talento nem vocação, se julgam literatos e artistas, como se tratasse de condecorações e títulos fornecidos pelo presidente da República do Cunany.
A esse pessoal, acompanhou o equivalente feminino; e era de ver como Cathos fazia pendant ao farmacêutico Homais; Madelon ao gramático Vaugelas; e Filaminta ao artista Pèlerin.
Uma sociedade, ou antes: este salão começou a dominar a atividade espiritual do país; e não havia recompensa do esforço intelectual em que ele não se metesse e até pusesse o seu veto.
O parecer dele era sempre sobremodo néscio e tolo.
Para uns, ele opinava:
— O Jagodes receber prêmio — qual! Um filho natural! Não é possível!
Para outros, ele sentenciava:
— Não julgo o Fagundes digno de figurar no Grêmio Literário Nacional... Ele não bebe champagne!
A propósito destoutro, ele dogmatizava:
— O Bustamante não pode receber a medalha. É verdade que ele tem merecimento; mas veste-se muito mal...
Essa opinião acabava de ser pronunciada pelo ilustre literato Manuel das Regras, cuja obra por ser desconhecida era de alto valor, quando, num canto da sala, foi visto um sujeito mal vestido, relaxado, sujo mesmo, com um todo de homem de outros tempos.
Todos se entreolharam com certo medo, apesar do estranho não ter nenhum ar de existência sobrenatural.
Um mais animoso resolveu-se a falar ao intruso:
— Quem é o senhor?!
— Eu! Eu sou Francisco II, rei da Prússia.
E toda aquela miudeza de gente escafedeu-se por todas as portas e janelas da sala.
Careta, Rio, 5-11-21.
Outras noticias
Da minha viagem à República dos Estados Unidos da Bruzundanga, tenho publicado, no A.B.C., algumas notas com as quais organizei um volume que deve sair dentro em breve das mãos do editor Jacinto Ribeiro dos Santos.
Estou fora da Bruzundanga há alguns anos; mas, de quando em quando, recebo cartas de amigos que lá deixei, dando-me notícias de tão interessante terra. De algumas vale a pena dar conhecimento ao público que se interessa pela vida desses povos exóticos e paradoxais.
Diz-me um amigo, em carta de meses atrás, que a Bruzundanga declarou guerra ao império dos Ogres; mas não mandou tropas para combatê-los ao lado dos outros países que já o faziam. Tratou unicamente de vender uma grande partida de tâmaras dos seus virtuais aliados, com o que o intermediário ganhou uma fabulosa comissão.
Outra carta que de lá recebi, mais tarde, conta-me que os governantes da Bruzundanga resolveram afinal mandar uma esquadra para auxiliar os países amigos que combatiam os Ogres.
Logo toda a Bruzundanga se entusiasmou e batizou a sua divisão naval de "Invencível Armada".
Como lá não houvesse um Duque de Medina Sidonia, como na Espanha de Felipe II, foi escolhido um simples almirante para comandá-la.
A esquadra levou longos meses a preparar-se e com ela, mas em paquete, partiu também uma missão médica, para tratar dos feridos da guerra contra os Ogres.
Tanto a esquadra como a missão chegaram a um porto intermediário, onde, em ambas, se declarou uma peste pouco conhecida. Chamado o chefe da comissão médica, este respondeu:
— Não entendo disto... Não é comigo... Sou parteiro.
Um outro doutor da missão dizia:
— Sou psiquiatra.
E não saiu daí.
— Não sei — acudiu um terceiro, ao se lhe pedir os seus serviços profissionais — não curo defluxos. Sou ortopedista.
Não houve meio de vencer-lhes a vaidade de suas especialidades, de anúncio de jornal.
Assim, sem socorros médicos, a "Invencível Armada" demorou-se longo tempo no tal porto, de modo que chegou aos mares da batalha, quando a guerra tinha acabado. Melhor assim...
Não foram só estas duas cartas que me trouxeram novas excelentes da Bruzundanga.
Muitas outras me chegaram às mãos; a mais curiosa, porém, é a que me narra a nomeação de um papagaio para um cargo público, feita pelo poder executivo, sem que houvesse lei regular que a permitisse.
Um ministro de lá muito jeitoso, que andava fabricando em vida, ele mesmo, as peças de sua estátua, julgou que fazendo uma tal nomeação... tinha já em bronze o baixo relevo do monumento futuro à sua glória.
Consultou um dos seus empregados que estudava leis e a interpretação delas em Bugâncio, sabia a casuística jesuítica, além de conhecer as sutilezas da Escolástica, a ponto de ser capaz de provar com a mesma solidez a tese e a antítese, desde que os interessados em uma e na outra o retribuíssem bem.
Dizia a lei fundamental da Bruzundanga:
"Todos os cargos públicos são acessíveis aos bruzundanguenses, mediante as provas de capacidade que a lei exigir".
O exegeta ministerial, depois de verificar que o papagaio tinha nascido na Bruzundanga, e era, portanto, bruzundanguense, concluiu, muito logicamente, que ele podia e lhe assistia todo o direito de ser provido em um cargo público de seu país.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.