Por Lima Barreto (1911)
E o povo na rua, aos “cordões” carnavalescos, cantando, gritando, corriam para o fogaréu e os que lá chegaram em primeiro lugar, espantavam para dentro do prédio incendiado os muares que dele fugiam espavoridos.
De onde em onde, uma máquina dos bombeiros, arrastada por muares, abria, por entre a multidão excitada, um sulco, deixando um rastilho de fogo.
CAPÍTULO VIII
A reação da opinião pública à candidatura de Bentes era tão forte, tão geral e tão intensa, que o aparelho de compressão governamental não se julgava suficiente para vencê-la. Num pais, em que nunca os votos foram contados para a eleição dos seus representantes, os adeptos de Bentes temiam que o fossem pela primeira vez e derrotado o candidato do sindicato. Por todos os processos, procuravam-se obter aderentes e estes podiam contar com os favores mais inesperados do poder e da administração.
Liberato era coronel da Guarda Nacional e o velho chefe político de uma longínqua freguesia do Rio de Janeiro. Nela, em Cambuci, estava habituado a vencer ou simular vencer, sem protesto, as eleições. De uns tempos a esta parte, porém, o seu prestígio decaía e os eleitores se insurgiam contra o seu mando infecundo e nocivo. Tendo chegado a época de escolher novos vereadores, Liberato temeu uma derrota mais completa, tanto mais que Cambuci, como o resto do país, se rebelava contra a ascensão de Bentes. Liberato, logo em começo, avariado como estava no seu prestígio, tratou de hipotecar seus préstimos a Bentes, por intermédio de Campelo. Escusado é dizer que foram bem recebidos e em troca ele pode contar com o apoio incondicional dos promotores da candidatura Bentes.
Aproximando-se o dia da eleição dos vereadores, Liberato verificou que, apesar das ameaças, muitas seções do seu distrito não lhe registrariam votos de que precisava para a vitória total. Convém não esquecer que as eleições são as mais vezes simuladas, que os mesários as fazem ao sabor de suas conveniências partidárias e raro se consegue apurar a votação que as urnas recebem efetivamente.
Sabendo que algumas seções resistiam às suas ameaças e ao suborno governamental, Liberato entendeu-se com Campelo e outros chefes de primeira categoria que o animaram a proceder das forma que entendesse, contando que o partido fosse o vencedor.
O velho coronel julgou melhor armar uma emboscada. Apossou-se com antecedência do edifício público em que ia funcionar o colégio eleitoral, estudou-lhe os aposentos, organizou seteiras e, no dia do comício, estava lá o seu bando por trás das portas e paredes, gatilho no dedo, canos em seteiras invisíveis sobre os eleitores descuidados.
Em dado momento, em hora aprazada, a descarga foi feita; caíram feridos e mortos e o médico que Liberato tinha alugado não tivera serviço porque aqueles foram só entre os adversários do velho coronel.
Exata manobra política indignou a cidade e a opinião mesmo sem conhecer a forma atroz com que fora armada a tocaia; mas Liberato não se incomodou muito, pois o inquérito policial nada apurou, não se sabendo mesmo se tinha sido feito.
Houve quem dissesse que isso estava no programa de Bentes, mas não era verdade. É certo que Lucrécio já tinha avisado do que ia acontecer a Bogoloff, convidando-o até a vencer os honorários médicos que Liberato piedosamente oferecia; mas dizer que tal proeza estava no manifesto de Bentes, é inverdade que não se sabe bem como foi gerada.
O programa de Bentes era até lírico, cheio de utopias e a candidez de suas intenções não se quadrava com certas atitudes de seus adeptos. Do que havia necessidade era impedir que os cidadãos dissessem nos jornais, pelo menos, que não queriam o paraíso que ele prometia. Seria bem fácil convencer o país com os processos mais comuns de baionetas e garruchas; mas tal não quiseram e tentavam uma catequese em que os incidentes como esse de Liberato não foram os únicos.
As urnas deviam manifestar-se; e, como sempre nas suas manifestações havia sangue, tratou-se de lhe aumentar a quantidade em relação à espontaneidade do candidato e da popularidade do partido que o apoiava.
Se os seus oposicionistas recebiam manifestações da cidade inteira, Bentes era aclamado muito decentemente por grande caudas de caleças de enterro.
Riam-se os filósofos de um esforço tão inutilmente dispendido e não esqueciam nunca de lembrar o célebre pensamento de La Rochefoucauld: “ A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.
É difícil de dizer todas as belas coisas que Bentes prometeu no seu programa. Leu-o num dos mais luxuosos teatros da cidade que, por sinal, nesse dia para nele entrar não se pagavam bilhetes. Fuas disse, ao dia seguinte, que era uma peça magistral, valendo ouro os seus conceitos e as suas arrojadas tentativas de engrandecimento do país.
Se valiam ouro nem todos podiam garantir, mas que prometiam despesas avultadas é fácil de afirmar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.