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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Para não ser surpreendido fechou a porta à chave e tirou das algibeiras das calças dois gordos maços de notas, abriu-os, pôs-se a contá-los: achou seiscentos e vinte mil-réis. Separou cento e cinqüenta, embrulhou-os cuidadosamente com a cautela do broche e deixou-os na gaveta. Depois de guardar o resto do dinheiro sentou-se na cadeira e, fincando os pés na parede, pôs-se a balançar-se com os olhos no teto, pensando:

Fora covarde abandonando a sorte, devia ter ficado para outra banca: só na repetição de 20 ganhara trezentos e cinqüenta mil-réis; devia ter continuado, aumentando o jogo. Tivera palpite de jogar o máximo na repetição do 20, mas começaram a falar — "que o número estava mau, que a banca estava de sorte". Escarapelou-se, aborrecido. "Qual, quem joga não deve dar ouvidos a outros... Vão para ali peruar, com inveja de quem ganha, e é isso... Podia ter saído com uma fortuna." Assentando na cadeira, tomou um lápis, pôs-se a fazer cálculos, somando lucros fantásticos. Era a sua mania.

Se comprava bilhetes, imaginando tirar a sorte, distribuía a fortuna, não em sonho vago, mas escrevendo parcela a parcela, a empregar o dinheiro: tantos contos para um prédio, edificado a seu gosto, entre pomar e jardim, em arrabalde tranqüilo; tantos para móveis d'estilo, objetos d'arte, alfaias, livros. Uma parte para a aquisição de propriedades que lhe dariam segura renda; o resto em conta corrente, num banco.

Até o dia seguinte vivia regaladamente daquela ilusão, gozando a vida repousada e farta dos ricos, com amantes caras, um grupo de amigos para os saraus de literatura e arte, e a fortuna a multiplicar-se com a facilidade avassaladora com que as sementeiras crescem nos campos, alargando-lhe ainda mais a ventura. No dia seguinte, quando percorria a lista desanimadamente, procurava o final, já com o sonho desfeito, contentando-se com o mesmo dinheiro que lhe dava a esperança de poder, na loteria seguinte, alcançar a sorte desejada.

Com a roleta, porém, "eram mais seguras as probabilidades". Conhecia um rapaz que dissipava, a mãos rotas, como um milionário. Tinha as melhores amantes, vestia-as com fausto, cobria-as de jóias. Diziam que a sua casa, nas Laranjeiras, era como um palácio de lenda: bronzes raros, telas preciosas, tapetes mais altos que relvagens, móveis antigos, armas autênticas, carro na cocheira e cavalos de raça, com tratadores ingleses.

Gastava como um nababo, só à custa da roleta e do dado, porque os prêmios que os seus parelheiros levantavam mal cobriam as despesas com o trato, com o aderenço, com os jóqueis.

O seu ideal era viver como o Junqueira, o impassível Junqueira que, com um charuto na boca, balançando a perna, perdia dezenas de contos com a mesma serenidade, com a mesma superior indiferença com que estourava as bancas em dias felizes. Afinal — com quanto entrara? com vinte mil-réis, tendo perdido dez na espelunca do Cordeiro.

Não tornava àquele antro, onde se falava uma geringonça impenetrável e o ar era todo fumo e despejados bafos d'álcool. A gente era uma canalha: capoeiras, gatunos, até um Castro, por alcunha o Faísca, que era dos mais assíduos, sempre obsceno, e bravateador, mostrava navalhas célebres, entre elas, uma mais querida, de lâmina gasta, que rasgara ventres. Não lhe convinha aquilo.

Falar com o Junqueira era até chic, porque sempre o via em boas rodas, mas cumprimentar qualquer daqueles tipos do antro, era uma vergonha que o comprometia. Na outra casa eram todos homens limpos, rapazes colocados, de nome; eram relações que ficavam e serviam; depois a banca era outra. Decidia-se e havendo calculado uma diária modesta de quinhentos mil-réis — coisa fácil — levantou-se feliz, esticou os braços e pôs-se a cantarolar. Bateram à porta. "Entre!" disse, sem lembrar-se de que a fechara à chave. Empurraram.

— Está fechada, disse a velha.

Correu a abrir. Dona Júlia entrou com o café.

— Toma, enquanto está quente; — e deixou-se cair na cadeira, cansada. Ele bebia o café a pequenos sorvos.

— Mamãe já pagou à Felícia?

— Ainda não. O dinheiro que tenho mal chega para a casa. E ela bem precisa, coitada!

— Eu tenho algum, disse ele com superioridade.

— Pois sim. — E afirmou com enternecimento: Olha, meu filho. como essa não achamos outra: não é uma criada, é uma amiga. Quanto mais vou conhecendo o mundo mais me afeiçôo à pobre velha. Outra fosse ela e andaria por aí a resmungar, de trombas, mas não: é sempre a mesma e pra tudo.

— É uma boa velha, isso é, concordou.

— Eu é que sei, que vivo com ela.

— Pois se quer o dinheiro...

— Não te faz falta? — Não, senhora.

Abriu a gaveta, contou trinta mil-réis e, com o pacotinho em que tinha guardado os cento e cinqüenta e a cautela do broche, entregou-os à mãe. Ficou um instante parado a contemplar o dinheiro que reservara, mas teve um movimento de bondade: tomou uma nota de cinqüenta e deu-a à velha.

— Isto é para a senhora.

Ela abriu muito os olhos, espantada.

— Onde arranjaste? Foi o Fábio?

(continua...)

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