Por Raul Pompéia (1881)
Arsênio despediu-se naturalmente; mas sem que lhe ocorresse a conveniência de atenuar de qualquer forma a desagradável colisão do seu expediente. Sentia-se atordoado. A desconfiança que esperava destruir, procedendo franco, parecia haver crescido. Qual a significação daquela lágrima? Seria a dor da injúria grosseira a uma consciência limpa? Mas supunha ter distinguido mais que simples desgosto na expressão queixosa. Dar-se-ia caso de ser aquilo uma confissão involuntária, colhida ali ao acordar-se, no descanso físico, no desalinho da alma, antes da dissimulação carinhosa que não fora lembrada na oportunidade?
A suspeita fixou-se-lhe formalmente no espírito.
A vigilância malvada do anônimo sobreveio para o remate.
Trouxeram-lhe misteriosamente ao escritório, surpreendida não sei como, uma carta da mulher, duas linhas:
"Não venha! não venha; porque estamos traídos."
A letra era a sua, absolutamente a sua, horrivelmente a sua!
Arsênio, trêmulo, agindo automaticamente como um sonâmbulo, correu à casa. Procurou a mulher e estendeu-lhe a mão com a carta aberta. Tentou um supremo esforço e pôde dizer:
- Não devia ainda mostrar...
Mocinha estava sentada diante da cesta de vime das costuras. O pano em que trabalhava desprendeu-se-lhe dos dedos. Cobriu-lhe o semblante uma palidez de morta. Nem um movimento, nem uma exclamação. Levantou, só para o marido, um olhar indefinível, esse olhar de aço simultaneamente límpido e mortífero, com que as mulheres se defendem na extrema emergência.
Arsênio trancou-se no seu gabinete.
Tratou de impor-se toda a possível calma para encarar a situação.
Lembrou-se das soluções literárias, sorrindo dolorosamente, as saídas apresentadas para o caso pelos dramas, pela teoria... Teses... Propor um código aos temperamentos!... A julgar pela vertigem que lhe obscurecia o cérebro, o seu temperamento reclamava a solução violenta, o desenlace sanguinário... Mas ponderou imediatamente que a simples observação do próprio temperamento provava que ele não era dos adequados ao rompante teatral.
Tomou então uma folha de papel e escreveu para mandar ao sogro:
"Restituo-lhe sua filha. Por ela saberá V. S. os motivos que me induzem a proceder assim. Não venha daí tristeza à sagrada velhice de um pai. Não há infâmia nos desvios irresponsáveis do coração. O casamento é a aliança da lei, mas é a confusão do sangue e do sentimento. Desfeita a sinceridade desta união, a infâmia é exatamente persistir a prostituição do registro civil."
Formulou ainda algumas frases de cortesia e assinou. Ao concluir, sentia-se abatido, como se se houvessem rasgado as veias.
Impeliu vagarosamente a gaveta das cartas restantes do seu amor, com o cuidado que se tem para o esquife de um cadáver querido. Abriu outra para tirar um envelope.
Achou dentro o revólver, um brilhante revólver americano, que nunca servira. Empunhou-o distraidamente... Estava carregado... como quem tem confiança no seu temperamento de homem avesso às soluções teatrais, certo de que era incapaz de matar alguém, a si muito menos..
E o descarregou na fronte.
Raul Pompéia
MILINA E TURCO
I
Estava a tarde feia, úmida, aborrecida.
Quem entrava, trazia os pés molhados; quem saia levava a certeza de se encharcar à porta. Dentro em pouco devia anoitecer. O sol caíra para lá das casas que fechavam a boca da rua ao ocidente...
Na estalagem, os quartos estavam já escuros, e esta escuridão vinha contaminando pouco a pouco o palco central, onde se amontoavam as tinas de lavagem e a roupa suja que ficara esquecida.
Emília, a pequenina Emília, com um saiote curto, que lhe deixava descobertos os joelhos, estava assentada na porta de um quartinho estreito e imundo. Aproveitava o luar do lusco-fusco para pegar na boneca. A pobre criança com os seus seis anos só trabalhava dia e noite. Feliz noite para ela, o lusco-fusco não é dia, nem é noite. A sua faina arrefecia naquela hora.
A boneca...
Digamos que boneca era: um saquinho de chita sem cor própria, cheio de trapos, comprido e apertado em uma das pontas por um cordão. Este cordão era a graça daquele miserável brinco. Representava de pescoço; era a beleza plástica forjada pela pobre imaginação de Emília para a sua Milina.
A boneca, ou antes Milina, caíra numa poça d'água e estava pingando...
A pequena, com o seu rostinho meigo e contristado, acariciava-a. Quem a visse teria pena.
- Emília! Emília! gritou uma voz arrotada.
A voz gritava de dentro do quarto. Lá na sombra entrevia-se o vulto de uma mulher espichada no chão sobre um monte de panos escuros e imundos, cheirando a vinho.
II
Emília, descalça, saiu da estalagem, correndo, com um regador amarrotado e ferrugento. Era tão grande para ela o regador que ia roçando pelos lajedos. Ia buscar água para a pocilga da senhora que a protegia.
E Milina?... Pobre Milina! Emília havia de lhe pedir perdão por tê-la deixado só, naquela hora que era a única em que a coitada dormia no colo de mamãe...
III
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.