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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

— É um caso curioso.

Leiva veio interromper a conversa. Há dias que ele estava no jornal, fazendo polícia. Sabendo que eu me fizera continuo, começou a procurar-me e por aí foi travando relações, “engrossando” habilmente, até que um dia entrou como repórter e começou a gritar comigo para que eu lhe trouxesse penas. Losque continuou:

— Passa por séria, por ser um poço de virtudes. Ninguém se anima a requestá-la. O rosto é de Messalina, mas a alma de Cornélia; entretanto...

Calou-se um pouco, suspendeu o auditório, para obter o efeito desejado.

— Mas é curioso, continuou devagar; é curioso que o seu egoísmo familiar a tivesse levado tão longe.

— Por quê? perguntou alguém.

— Por quê!? Porque vive em mancebia com o sobrinho e com o filho.

Os circunstantes não se espantaram; sorriram incredulamente.

— Qual! fez um.

— Engraçado, aduziu sem ir de encontro a dúvida geral, é que ela não pode suportar um só! Hão de ser os dois, juntos, um do lado esquerdo e outro do lado direito... Disse-me a Fulgência, que foi lá criada, que uma noite, não vindo um deles, ela a passou toda na sala de jantar chorando e arrancando os cabelos.

— É um caso curioso de psicopatia sexual, falou Loberant. Em Londres, há casos especiais quase em gênero semelhante; mas ao contrário: é um homem para duas mulheres, parentas próximas, irmãs, mãe e filha; mas como este não conhecia... Mas quem te informou, Losque?

— Uma rapariga que é minha criada, e foi da viúva. É maravilhoso! Que revulsão na alma! Que móveis íntimos a levaram a isso! Que forte ideal amoroso não encontrado foi esse que a obrigou a reunir dois rapazes para satisfazê-lo!

Leporace então observou:

— Esta sociedade está muito corrupta.

Gregoróvitch entrava e ainda ouviu as palavras do secretário. Parou um instante, concertou os óculos de aros de ouro e exclamou com malícia:

— Oh! Catão!

— Não sou Catão, mas o que há por aí, pelos bastidores, causa espanto. A sociedade, ao que parece, despenha-se...

— Sempre houve quem dissesse isso, objetou o russo. Se examinares os satíricos de todos os tempos, eles te revelarão a sociedade sempre corrupta e desbocada... Eu julgo a moral impossível!

— Por quê?

— Porque é feita para diminuir em nós o que é de mais estrutural e de mais profundo: a individualidade, o prazer e os instintos!

— Mas a sociedade precisa repousar nela; senão... disse Leporace.

— Não há dúvida!

— Então concordas que, em face da própria sociedade, nós nos devemos esforçar por justificar as regras morais, manter sempre de pé os seus preceitos.

— Mas se têm sido inúteis todos os esforços das religiões — a força mais poderosa para uma modificação inteira do indivíduo, como havemos de consegui-lo? Demais... demais, para quê?

— Para a eternidade da espécie, falou com ênfase Leporace.

— Valeria a pena? retrucou Gregoróvitch.

E todos se calaram sem achar de pronto uma resposta cabal.

X

Os meus primeiros conhecimentos foram-se paulatinamente afastando de mim. Laje da Silva, desde que me vira de botas rotas e esfomeado, passara a cumprimentar-me friamente, superiormente; Leiva tratava-me bem ainda, mas marcando distância, desde que se fizera repórter; e o próprio Gregoróvitch esquecera-se da maneira por que nos

(continua...)

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