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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

A sua obra há de se ressentir da fadiga dos seus músculos cansados e do desinteresse que traz a monotonia de fazer durante anos a mesma tarefa. A sociedade perde muito com isso, pois os seus trabalhos não terão a perfeição que havia nos que executava com trinta anos de vida.

Seria inútil repetir exemplos como este, pois eles estão aí aos pontapés, para mostrar o quanto é indispensável decretar medidas que rejuvenesçam os quadros de todas as profissões.

Para as funções públicas, inclusive as militares, já o célebre filósofo político-militar dinamarquês, Hans Reykavyk propôs dois métodos para obter o remoçamento dos quadros:

Um, aparente meramente, e de origem feminina; o segundo substancial e rigorosamente científico.

O primeiro método se baseia nas pinturas, pomadas e massagens. Não há negar que o seu emprego, quando executado por operador hábil, dá ao indivíduo que a ele se sujeita a aparência de mocidade; mas é só aparência e não restitui a quantidade de força vital que o indivíduo perdeu com o correr dos anos. De resto, ele ia levar para a caserna hábitos de camarim de atriz.

A guerra em si mesma nada tem de teatral; só acham essa cousa nela os pintores de batalhas que recebem encomendas dos governos, e os literatos da moda.

A guerra em si é uma cousa brutal e horrendamente ignóbil; a única consideração que rege a batalha, se há uma, está na cabeça de quem a dirige, e isto não é matéria para tela, nem para páginas literárias, mas notas e riscos numa carta topográfica, em escala conveniente com convenções adequadas.

Além disto, introduzindo hábitos teatrais no viver guerreiro, iria isso perturbar a ação dos combatentes, diminuir-lhes a eficiência com a suposição de que deviam tomar belas atitudes, para obter o aplauso da galeria, distraindo-lhes do verdadeiro objetivo de sua ação que é dar cabo do inimigo, por fas ou nefas.

Esse sistema de academia de beleza não pode ser adotado, sendo essa também a conclusão a que chega, depois de exaustiva análise, o grande filósofo dinamarquês que nos guia nestas despretensiosas notas.

Resta o método científico que se estriba na psicologia experimental e é corrigido pela sociologia transcendente.

Não posso transcrever aqui todas as considerações que precedem a exposição que o Senhor Hans Reykavyk faz desse método.

Bastará dizer-lhes que, depois de expor fatos concretos em abundância, ele estabelece o postulado de que o general deve ser moço; de menos de trinta anos, pois é nessa idade que os homens têm o máximo de iniciativa.

Saído das escolas militares o oficial será logo general, ganhando como tenente, depois irá descendo de graduação de forma a chegar aos sessenta como tenente, ganhando como general.

Eis em linhas gerais o plano de rejuvenescimento dos quadros de oficiais militares, a que chega o ilustre Reykavyk, após uma análise detalhada das conclusões da psicologia experimental, convenientemente corrigidas pela sociologia transcendente.

Além de outras vantagens, tem este método a de fazer que os tenentes deixem, por morte, para as viúvas, filhos, filhas, genros e netos um montepio que porá estes a coberto de todas as necessidades — montepio de general.

Pelo seu caráter geral e abstrato, com as necessárias modificações, ele pode aplicar-se, não só a todas as corporações militares, como também a quaisquer outras civis, estipendiadas pelo governo.

Não é preciso mais dizer, a fim de pôr em evidência o grande alcance do sistema do pensador dinamarquês e chamar para ele a atenção do legislativo brasileiro.

Creio que, fazendo isso, cumpro um dos deveres da missão militar de que me acho incumbido no Brasil.

Capitão Ortiz y Valdueza, do corpo de Submarinos dos Estados Unidos da Bruzundanga.

Pela tradução do "bengali". — Lima Barreto — (Tradutor público ad-hoc).

Careta, Rio, 19-3-1921.

No salão da marquesa

Na República da Bruzundanga, nunca houve grande gosto pelas cousas de espírito. A atividade espiritual daquelas terras se limita a uns doutorados de sabedoria equívoca; entretanto, alguns espíritos daquele Fonkim se esforçavam por dar um verniz esperitual à sociedade da terra. Escreviam livros e folhetos, revistas e revistecas de modo que, artificialmente, o país tinha uma certa atividade espiritual.

Notavam todos a falta de salas literárias, de salões espirituais, tais aqueles que tanto brilho deram ao século XVIII francês, revelando não só grandes escritores e filósofos, mas também espíritos femininos que, pela sua graça, pelo seu talento de penetração, muito distinguiram o sexo amável, antes desse feminismo truculento e burocrático que anda por aí.

Consciente desta falta, a Marquesa de Borós, uma senhora de alta estirpe e não menos alta inteligência, tomou o alvitre de fundar um salão literário.

Ela residia em um grande palácio que se dependurava sobre a cidade capital, do alto de uma verdejante colina, e nele em certas e determinadas tardes reunia os intelectuais do país.

(continua...)

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