Por Lima Barreto (1911)
Saiu do Catete onde morava. Veio a pé bordando o mar. O céu estava povoado pelo luar. Benevenuto rodava o cais a olhar, ora aquelas casa sombrias, fechadas, adormecidas; ora, o mar, coberto de densa película clara, com manchas espaçadas, mais brilhantes, aqui e ali. As luzes esféricas de Villegaignon brilhavam muito azuis no seio do luar prateado. As montanhas muito negras, que a fosca claridade da lua fixava melhor o seu negrume, erguiam-se em Niterói; eram muralhas, ameias de um castelo fantástico em cujos altos torreões sentinelas vigiavam a muda obscuridade das planuras que se supunham do outro lado. A rua da Lapa iluminada, agitada pelo trânsito, tomou-lhe os passos.
Uma dama, vivendo dentro de uma atmosfera inebriante de perfumes fortes, cortou-lhe o caminho e perturbou-lhe por momentos o seguimento das idéias e o vôo dos seus desejos. Outras passaram estonteantes de irritantes perfumes, vestidos farfalhantes, altos chapéus, como velas enfunadas ao vento propício.
O largo da Lapa tinha as sua habitual agitação noturna e o seu trânsito; lá, mais além os Arcos, o aqueduto — um pontilhão sobre o lago infernal em que as almas ardiam como corpos e os corpos como miseráveis fragmentos de palha.
Os botequins estavam cheios; as garrafas espoucavam; músicas fanhosas e cansadas esforçavam-se por dar compasso e medida àquela agitação; os carros dormiam às portas dos clubes e os automóveis passavam céleres; o Passeio Público esperava o dia para o encontro dos amorosos e dos namorados inocentes.
Benevenuto entrou num café, quis encontrar, no atordoamento e na alegria dos outros, o pensamento calmo que lhe fugia. Um instante viu aquelas mulheres, aqueles chapéus, aquelas plumas; e o seu pensamento continuou triste. A lua se ocultara.
Continuou a descer, encaminhou-se para a cidade. Avenida. O Teatro Municipal enterrava-se um pouco mais. Tubos de borracha sobre patins de roda lavavam o asfalto e os lavadores viam com indiferença a sua vagabundagem atormentada.
Na estação do Jardim, os bondes demoravam-se mais um pouco a
reconhecer o lugar e a rua do Ouvidor já tinha aqui e ali, os seus ambulantes cafés noturnos. Foi no largo de São Francisco que notou alguma coisa de anormal na cidade. Doidas galopadas de moleques, correrias de garotos com a cabeça ao ar provocaram-lhe a curiosidade. As ruas se animavam. Bandos de homens, mulheres, corriam, apressavam o passo. Plácidas travessas de medíocres movimento agitavam-se como em dia de festa. Que era?... Diziam: é grande... é na rua do Senado... na rua do Riachuelo... E ele tinha com grande dificuldade a explicação para aquela estranha excitação de gente de condição mais vária, naquela hora. Que seria? Era um incêndio. Por sobre as casas, viu um penacho de nuvens negras, às vezes, na base, percebia-se uma barra alaranjada de ouro. Tomou um bonde no Campo de Sant’Ana, distinguiu nitidamente o incêndio. Existiam no edifício queimado ingredientes químicos. Era deslumbrante. No fogaréu havia tal variedade de vermelho que foi como se coroasse o cone ardente de um vulcão em erupção. No núcleo central, por cima dos telhados, a chama era rubra com os tons de ouro, para as bordas, cor de laranja; e, alçando-se assim, quase ao tope do morro que iluminava, transformava-se em novelos negros, leves, a voar, ao vento ligeiro que soprava.
Um enxame de fagulhas subia, brilhantes e vivas, até muito alto; e, no céu pardacento da fumarada negra, brilhavam como estrelas ígneas.
A uma oscilação da chama, o fundo verde do morro se descobria e o casario branco da encosta surgia numa visão de teatro. Um pouco em frente, as barras de um andaime dividiam o campo chamejante em quadrículos e a torre azul de São Gonçalo Garcia erguia-se no seu suporte de pedra. Viam-se-lhe os sinos aureolados de fogo e o cruzeiro desenhava-se no céu cinzento de fumaça. O povo continuava a correr. Havia nas frases, nos gestos, no andar, alegria e curiosidade. Todos corriam...
Onde é? Onde é? No Tribunal... Na Avenida... Na Ordem do Carmo... E corriam mulheres, homens, roçando-se, empurrando-se, mas sempre com ternura em comunhão, quase sempre aos abraços; e, por aquela multidão, ao fogaréu que braseava forte, perpassava um desejo de carícia, de beijos de amor — tal em nós é a força com que a destruição desperta na nossas almas a necessidade da eternidade. Velhos cultos ancestrais do fogo sagrado do lar, do fogo elementar do Céu, da fogueira comum, trabalhavam aquelas almas, más e inocentes, perversas e piedosas, de gente vinda dos mais estranhos climas, das raças mais várias, de pessoas de cultura mais diversa, para contemplar o magnífico espetáculo do fogaréu violento. Da eterna morte vem a eterna vida, e o sacerdócio daquela é o sacerdócio desta... Destruído um milhão, em pouco, dos despojos deste, surgirão os vencedores e os perfeitos...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.