Por Coelho Neto (1906)
— E Paulo? Onde andará? Pois então aquele menino não sabe que sou doente? Como é que sai assim sem dizer uma palavra? Isto até parece castigo de Deus. Pois eu nunca fiz mal a ninguém...
— Não é só minh'ama que sofre.
— Ora o quê? mas como eu tenho sofrido, Felícia?! — Deus é grande! Mais tem ele pra dar, minh'ama.
Quando chegaram a casa a vizinha, que cantarolava à janela, disse "que o moço estivera ali muito tempo, batendo". As duas mulheres ficaram perplexas.
— E para que lado foi, minha senhora? perguntou a velha.
— Ele subiu. Creio que tomou um bonde.
— E agora, Felícia?
— Ele volta, minh'ama.
Efetivamente, como se rondasse perto, à espreita, pouco depois delas haverem entrado, Paulo bateu. Dona Júlia apressou-se e, vendo-o, iluminou-se-lhe o rosto. Longe de o recriminar recebeu-o contente, sorrindo. O estudante, deixando o chapéu sobre a mesa, sentou-se esparramadamente no sofá, abrindo os braços no encosto:
— Com certeza já estava aflita com a minha demora?
— Ah! não... não havia de estar.
— Pois eu andei na lida: a procurar a senhora minha irmã.
— E então?
— Qual! Um companheiro do Mamede, maquinista da Estrada. disse que a vira em Mendes, com um estrangeiro. Fui lá. Efetivamente encontrei uma moça muito parecida com ela, um pouco mais cheia. — Entrou no quarto e declarou desanimado: Qual! aquela não aparece tão cedo, se aparecer... O velho Fábio esteve aqui, mamãe?
— Não. Por quê?
— Avarento! — rosnou reaparecendo em mangas de camisa.
— Estiveste com ele?
— Não, senhora. Escrevi uma carta pedindo-lhe uma quantia para não empenhar o broche; respondeu que viria trazer o dinheiro à senhora.
Riu com sarcasmo, repoltreando-se no sofá, com as pernas muito abertas.
— E não empenhaste o broche?
— Que remédio! O dinheiro está aí. Deu pouco: cento e cinqüenta. Pois é verdade, — derreou-se atirando palmadas às coxas: o nosso amigo Fábio é um excelente conselheiro. Em conselhos chega a ser perdulário. Quando eu lhe dizia...
— Ele também é pobre, coitado!
— Então para que vive a arrotar grandezas? O homem da casa voltou?
— Esteve aí.
— E então? ameaças, desaforos...
Ela conteve-se, suspirando; por fim disse:
— Ah! meu filho, nós não podemos continuar a viver assim. Não imaginas a minha vergonha. — E meiga, fitando-o: Sabes onde fui com Felícia? Fui empenhar uma jóia. Não aparecias...
— E empenhou?
— Então?
— Não faça mais essas coisas, mamãe; a senhora devia ter esperado. Não é vergonha dever.
— Pois sim, mas... é comigo que eles se entendem, sou eu que ouço os desaforos. E tu não te lembras dos vizinhos? essas mulheres, então, que não saem da janela. Não, assim é melhor. Vamos agora trabalhar, cada um por seu lado. As jóias não me fazem falta; não saio. Lá ao menos estão seguras.
— Sim, mas vencendo juros.
— Ora! mais vale a minha tranqüilidade.
Paulo acendeu um cigarro e pôs-se a medir a sala a largas passadas, meditando. Dona Júlia indagou: "Se já havia jantado?"
— Jantei na cidade.
— Então chegaste hoje? — Há pouco.
Ficaram algum tempo calados. Ele, numa alegria transbordante, cantarolava, assobiava, d'olhos altos, as mãos para as costas, indo e vindo. A mãe atreveu-se a perguntar:
— Nunca mais foste à policia?
— Para quê? Perder tempo? Um agente com quem falei pediu-me logo dinheiro. Estou farto de gastar com essa súcia.
— Então é assim?
— Se é...! — Sentou-se e falou vagarosamente, em tom de certeza: Para mim Violante não está no Rio, foi para São Paulo ou para a Europa, quem sabe? Vamos nós tratar da vida. Já perdi muito tempo. Este ano foi-se, não alcanço mais os colegas, mesmo não tenho cabeça para estudos, assim como ando. Não quero mais saber de jornais: são noites perdidas, aborrecimentos, por uma ninharia. Se eu pudesse conseguir a cadeira de história no Externato Meireles... O diabo é que há mais de vinte candidatos.
Soprou uma baforada e, vendo a mãe curvar-se a esfregar a perna, gemendo, quis saber se estava sentindo alguma coisa.
— Tenho sofrido muito nestes últimos dias. É da umidade... e hoje andei tanto!
— Eu também não tenho passado bem: dores de cabeça, fastio... É fadiga.
Também, com a vida que levo não é para admirar: não paro.
— É, precisas ficar um dia em casa descansando.
— Pudesse eu! — suspirou encaminhando-se para o quarto. — Mamãe pode arranjar-me uma xícara de café? — Sim.
A velha levantou-se pesadamente e foi devagar, claudicando, a amparar-se pelas paredes do corredor. Paulo entrou no quarto, deu mais luz ao gás e sentou-se à beira da cama, esfregando as mãos. Esteve algum tempo a sorrir seguindo um sonho. De repente levantou-se, ficou junto à mesa, a olhar a pasta de oleado que rebrilhava. Tomou o colete, o casaco e pôs-se a esvaziar os bolsos tirando cédulas amarfanhadas, em bolos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.